28 janeiro, 2009

O TELEMÓVEL É UMA ARMA

Em casa do meu avó havia uma pistola fascinante, uma Astra 0.25, com a coronha em madrepérola. Linda. Eu, que gostava de deambular pelos cantos e recantos, dei com ela um dia. Não compreendia por que razão, numa casa de caçadores, onde se alinhavam meticulosamente espingardas ao lado de espingardas, havia necessidade de manter em recato uma pistola que se me afigurava tão inocente.
Uma vez, o meu avô apanhou-me em pleno processo de investigação. Falou-me de armas, do respeito que se deve ter por elas, ensinou-me os cuidados e as cautelas. Mas, em mim, persistia a velha questão. Por que razão tinha o avô aquela arma? "Porque, um dia, ela pode ser necessária." Nunca foi. Foi motivo de alguns arrufos durante as partilhas, mas já lá vai.
Acabo de chegar do cinema onde vi O estranho caso de Benjamim Button. Ao meu lado esquerdo havia um lugar vazio, nas duas cadeiras seguintes sentavam-se dois seres humanos do sexo feminino, de adolescência perdida há muito, que passaram mais de 80% da primeira parte do filme a fazer comentários num tom demasiado alto e a mandar, permanentemente, sms's. Claro, aquelas luzes insistentes dos telemóveis entravam pela minha visão periférica e impediam-me de apreciar a magnífica fotografia, os sépias e os amarelos sulistas da fotografia de Claúdio Miranda. Eu estava furiosa. Sentia-me ofendida. Eu já sentia que as criaturas ofendiam o próprio David Fincher.
Ora bem, poderia, de imediato, ter avisado os dois seres que me sentia incomodada. Mas o Zé Ricardo não aprecia que eu tome atitudes radicais e eu não aprecio que o Zé Ricardo não aprecie as minhas atitudes radicais.
Como sabem, os deuses protegem os audazes: entre os dedos, eu conservava um restinho de um guardanapo de papel que trouxera da mesa do café. Fiz com ele uma bolinha bem apertada, prendi-a entre os dedos e, com o polegar, disparei-a em direcção à cara da criatura mais perto de mim. Todas as mulheres da minha família têm boa pontaria e eu não fui excepção à regra: a fisgada acertou-lhe em cheio na face esquerda. Olhou para a fila de trás e fiquei a saber que, para além de não se saber comportar num cinema, desconhecia as mais elementares leis da física. Sente-se atingida na face esquerda e olha para trás? Brilhante.
Durante o intervalo tomei a decisão que se impunha. O meu telemóvel, carregando lá num botão, acende uma luz que funciona como lanterna. Pois bem, tirei-o da mala, segurei-o estrategicamente e, quando a criatura disparou o primeiro sms, eu disparei-lhe a luz em cheio nos olhos. Julgo que terá compreendido. Não mandou mais nenhum. Mas a segunda criatura mandou. Levou com uma farolada nos olhos e a primeira disse-lhe qualquer coisa baixinho.
Ora, se pararam foi porque sabiam que o estavam a fazer era errado. Isso revela um profundo desprezo e desrespeito por quem comprou o seu bilhete e quer ver o filme sem ser perturbado pela estupidez alheia. Isso torna tudo muito mais grave.
Avô, hoje, eu usei a Astra. Mas foi necessário.
Posto isto, (sabe-se lá as voltas que o mundo dá ) se alguma das agredidas com o farol do meu telemóvel, exigir reparo, é só escolher o local , as armas e os padrinhos. Como, de olhar para elas, deduzo que não compreenderão o significado desta última frase, terei todo o prazer em dar-lhes o contacto da minha advogada.

1 comentário:

Margarida Graça disse...

Uma história real contada de uma maneira fantástica e a realidade cada vez mais cheia de absurdos, cultivados pelos adultos.