30 janeiro, 2009

O PROFESSOR SATISFEITO

Eu acho que ser professor de Filosofia será, actualmente, em Portugal, uma das profissões mais divertidas.
Isto aconteceu há uma hora atrás. Na aula, ao falarmos de ética utilitarista, fomos naturalmente levados à questão do prazer como base da felicidade e, dentro do prazer, à diferença entre prazeres físicos ou primários e prazeres espirituais ou superiores.
Perante a clássica pergunta de John Stuart Mill acerca da preferência entre ser um porco satisfeito ou um ser humano insatisfeito, grande parte dos alunos revelou preferir a primeira. Nada que, induzido pela quotidiana experiência empírica, me provocasse qualquer supresa.
Perguntei, depois, se algum deles já teria tido alguma espécie de prazer espiritual, por exemplo, através de uma música, de um filme, de uma pintura, de um poema. Nada. Silêncio. Eu explico-me melhor, enfim, poderiam não ter entendido claramente o que eu queria dizer. Silêncio. Perante a minha insistência (enfim, o meu lado optimista), há uma aluna que ganha coragem e diz que já cantou karaoke no bar da escola. Esclarecido mas ainda insatisfeito, volto a insistir. Um outro aluno ganha coragem e diz que sente isso quando joga Playstation. Mais esclarecido, mas ainda insatisfeito, falo de coisas que façam mesmo pensar, que lhes façam sentir que pensaram sobre isso. Uma rapariga fala então dos filmes de terror. Depois de ver um filme de terror, e por causa da impressão provocada, fica muito tempo a pensar naquilo. Finalmente, fiquei não só esclarecido mas também satisfeito.
Antes de ter ido para a faculdade, estive indeciso entre Filosofia ou Direito. Acabei por escolher bem. É bem melhor ser um professor satisfeito do que um advogado insatisfeito.

4 comentários:

addiragram disse...

Boa! Já agora e a velha excursão de turma procurando semear as sementes do prazer espiritual...?
Acrescentarei que quis em primeira linha ir para Filosofia (ainda dei os primeiros passos...) mas inflecti para outra área que me vai dando satisfações e insatisfações e, de novo,satisfações...

José Borges disse...

Bom, não servirá de muito já que está satisfeito com Filosofia, mas eu que estudo Direito garanto-lhe que tomou uma óptima decisão. Eu só não tive a mesma dúvida porque hoje não nos podemos dar a luxos (a não ser que sejamos ricos) e ir para Filosofia nos nossos dias é mesmo isso, um luxo, um capricho. Infelizmente, pois claro!

José Trincão Marques disse...

http://www.youtube.com/watch?v=-T30cQgHoRE&feature=related

José Ricardo Costa disse...

:-)

JR