29 janeiro, 2009

O BALOIÇO


Eu juro que não sou um daqueles freudianos exacerbados que transformam uma escova de dentes num símbolo fálico ou que vêem num sonho com ouriços-cacheiros a expressão de uma infância sexualmente recalcada. Mas eu não consigo olhar para O Baloiço, de Fragonard, sem deixar de ver um dos quadros com mais densidade erótica da história da pintura.

Eu sempre gostei de Fragonard, especialmente deste quadro, e até já fui gozado por causa disso. No último verão, em Londres, quis ir propositadamente à Wallace Colection só para o ver. E vi-o. Vi-o com olhos de ver. Não no papel, não num monitor mas, ali, sem barreiras, à frente dos meus olhos.

Com alguma imaginação, podemos vislumbrar sinais eróticos onde, à primeira vista, não parecem existir. Refiro-me ao movimento do baloiço ou ao sapato que salta. Mas a chave, para mim, está numa área aparentemente neutra ou inocente: na folhagem que envolve o homem que se encontra deitado.


Estarei a exagerar? Repare-se então na diagonal que vai desde o chapéu da mulher ao braço direito do homem. A folhagem, na parte superior, começa precisamente onde acaba o espaço ocupado pelas pernas da mulher. Por sua vez, na parte inferior, as pernas do homem vão desaparecendo por uma fenda cuja área é delimitada pela folhagem.

Vamos agora pôr o baloiço a andar para a frente e para trás. Quando a mulher chega à frente, ao ponto máximo de aproximação do homem, não chega a tocar nele. Mas também não precisa. Rodeado de toda aquela folhagem e já com parte do corpo absorvido pela subtil fenda que limita, no plano inferior, a diagonal que atravessa as pernas da mulher, assume-se uma unidade entre ambos. Uma unidade alcançada sempre que o baloiço desce, reforçando, desse modo, o ar deleitado com que estas criaturas de Deus regressam ao jardim do qual os seus remotos e bíblicos antepassados foram expulsos por um Deus casmurro e com mau feitio. Um Deus feito para figuras feitas para viver no deserto, entre a areia e o vazio, como Moisés, Abraão ou Jacob, mas não para quem aspira à felicidade num inebriante, luxuriante e imaculado jardim.

1 comentário:

Anónimo disse...

Essa do "gozado" era para mim? He!He!