05 janeiro, 2009

A MORTE DE IVAN ILICH

Pensa-se em Tolstoi e pensa-se em Guerra e Paz. Porém, A Morte de Ivan Ilich é um dos melhores livros que li em toda a minha vida e posso dizer que li alguns.

O juiz Ivan Ilich é um homem de sucesso, um homem com uma vida social e material bastante confortável. Um homem cujos prazeres consistiam em "almoços para que convidava senhores e senhoras com certo peso na sociedade", sendo esse o seu "passatempo habitual, semelhante ao passatempo habitual dessas pessoas, do mesmo modo que a sua sala de estar era semelhante a todas as salas de estar dos seus iguais".
Entretanto, adoece gravemente. Sente-se morrer. A partir daqui, assiste ao desabamento de todo o seu mundo e de si próprio. Começando a sentir o rosto da morte cada vez mais encostado ao seu, Ivan Ilich passa por um processo de reavaliação da sua vida, do seu trabalho, dos seus valores, da importância daqueles que o rodeavam. A formar a terrível ideia, e tragicamente tardia, de que terá vivido a sua vida de uma forma completamente errada.

É impressionante assistir à crescente lucidez deste homem a caminho da morte. Quanto mais perto, mais lúcido. Diz-se que Pessoa antes de morrer pediu os óculos. E que Goethe pediu mais luz. Ivan Ilich, perante o hálito frio da morte, parece possuir no espírito as lentes polidas de Espinosa num quarto cheio de luz.

Está tudo em menos de 100 páginas. Absolutamente imprescindível.

4 comentários:

Pedro Ramires disse...

Concordo em parte. Por mero acaso, estive, ontem, a discutir o livro com um meu amigo. Ele dizia que o prefácio do Lobo Antunes (à mais recente edição) era exageradamente elogioso; que não sentiu aquele esplendor com que antecipadamente vemos alguém ‘olhar’ para o livro.
Penso que depende da idade com que lemos o livro. Claro que sempre depende da idade com que lemos o livro, mas este livro em especial, se o lemos na juventude (como nós o lemos), apenas nos aparece como algo mais a alertar-nos para a artificialidade da vida - uma ideia já muito decalcada em outros livros que lemos -, acrescido da mestria de Tolstoi, com a sua capacidade ímpar para nos fazer reflectir sobre algo. Se o lêssemos mais tarde, ou quando o relermos mais tarde, é bem provável que tenho um significado mais profundo, é bem provável que venhamos a dizer que ‘está lá tudo’.

Já agora, como comento aqui pela 1ª vez, gostava de dizer que gosto muito do blogue, um dos melhores que apareceram na blogosfera no último ano. Obrigado.

José Ricardo Costa disse...

Muito obrigado!

Essa questão da idade é muito interessante. A idade leva-nos umas coisas mas traz-nos outras. Neste caso, ler o texto de Tolstoi numa idade em que já há mais passado do que futuro é bem diferente do que lê-lo numa outra em que há mais futuro do que passado.

Eu não tenho a edição com o prefácio do Lobo Antunes mas aquela traduzida pelo casal Guerra com postfácio do Nabokov. Mais discreto, naturalmente.

JR

José Borges disse...

Eu li o livro o ano passado e, dos meus 19 anos, não fiquei tão impressionado como esperaria ter ficado com os comentário que houvera lido e ouvido. É sem dúvida uma obra magistral mas desconfio que, como o poema Aniversário de Pessoa, só faça completo sentido para mim daqui a umas boas décadas.

A edição que li é também a dos irmãos Guerra com o posfácio do Nabokov pela relógio d'água (em caso de mais do que uma edição da obra, o facto de uma ter comentário do Nabokov e ser traduzida pelos Guerra torna a decisão de compra fácil, mesmo que o preço não seja o mais acessível.) Relativamente ao prefácio que o Lobo Antunes fez à edição de bolso da D.Quixote, também achei demasiado apóteotica, mas sobretudo notei que na entrevista que deu à revista Ler de Maio ele tenha dito que leu o livro mais de uma centena de vezes e no prefácio diga que foram quatro dezenas (enfim, um fait-diver, é verdade).

(Acho que já tinha comentado por aqui a propósito de um post sobre o roubo de livros, mas aproveito para dizer que é um dos poucos blogs que visito diariamente e que o faço com grande prazer. Obrigado)

José Borges disse...

ah! Já me esquecia: excelente aquisição, Jessey Norman é de facto extraordinária!