15 janeiro, 2009

A MENTIRA

Hoje, numa das minhas turmas, continuei a falar de percepção. A ideia era explicar que percepção e sensação são coisas diferentes. Ouvir os sons de uma música não é o mesmo que percepcionar essa música. E o mesmo se passa com os quatro sentidos principais.
A páginas tantas, dei comigo a falar dos dois hemisférios do cérebro e do modo como a ligação entre ambos pode condicionar a nossa percepção das imagens. Para exemplificar, e para recorrer a situações engraçadas, disse que, habitualmente, os homens têm mais facilidade em descodificar mapas do que as mulheres. Sou abruptamente interrompido com um estridente grito feminino vindo do fundo da sala: "É mentira!", acompanhado de uma expressão de indignação.
Assutei-me mas não desisti. Perguntei então à aluna se achava que eu era mentiroso. Não disse que era mentiroso mas respondeu que eu estava para ali a defender coisas machistas e sem pés nem cabeça. Eu, calmo como sempre, pedi então para me explicar por que razão era mentira o que havia dito e, assim, denunciar o meu machismo.
Naturalmente que não foi capaz, até porque para explicar certas coisas convém saber ler e escrever. Eu, depois de tão difícil rendição, lá me dispus a envenenar o mundo com o meu odioso machismo, explicando o motivo por que os homens descodificam melhor os mapas do que as mulheres.
A aluna aceitou a minha machista versão. E eu fiquei contente por saber que, ao menos, minutos antes, ouvia o que eu dizia na aula, embora com algumas dúvidas relativamente à possibilidade de percepcionar o que eu dizia. E digo apenas "percepcionar", pois "compreender" é um verbo que está cada vez mais afastado das nossas salas de aula. E, acredite, mentiroso é coisa que não sou.

2 comentários:

addiragram disse...

A questão da mentira e do significados atribuídos pelo senso comum dariam, certamente, outra belíssima crónica.
Devo dizer que se tivesse começado a sua aula por falar da razão porque as mulheres são capazes de dar atenção a várias coisas ao mesmo tempo ,e os homens não tanto, sairia aos ombros da sua aluna e teria de haver-se, agora sim, com a rapaziada.
E, quanto ao compreender, temos de lhes dar tempo. Agora vive-se, cegamente, com paixão tudo.Como um dia também nos aconteceu.

José Ricardo Costa disse...

Pronto, admito que a pedagogia possa não ser o meu forte. Mas o que está aqui em causa é a reacção da aluna perante uma informação dada por um professor, ou seja, alguém que possui conhecimentos, num espaço supostamente formal, como é a sala de aula. Provavelmente, estarei ultrapassado.