20 janeiro, 2009

MAR PORTUGUEZ

Josef Koudelka, Portugal, 1976

É ou não é? Nós olhamos para esta fotografia e percebemos logo que estamos em Portugal. Não é só pela mulher agasalhada com água pelos joelhos e a criança esganiçada aos berros. Ou a expressão do maneta, olhando com ar de quem pede desculpa por ter nascido. Há aqui uma tristeza, uma melancolia, um mal-estar, um tédio, uma náusea tão portuguesas que fazem com que esta imagem esteja para Portugal como as canções de Tom Waits para a América.

Portugal não é um país alegre, mesmo quando está alegre. A alegria portuguesa não é uma alegria activa mas passiva. Os portugueses alegram-se para se esquecerem que são tristes. Enfim, uma forma de descansarem um bocadinho da melancolia. Brincam à alegria como em crianças brincavam às casinhas. Por isso é que o poeta Ernesto Sampaio dizia que nada dá mais vontade de chorar do que ver um português a rir.

Há nesta imagem um spleen lusitano, uma chuva invisível e desmaiada, mas que molha mais por dentro do que o mar por fora. Veja-se o maneta. O maneta não vai. O maneta vem. E vem com o ar de quem percebeu que não pode nadar mesmo tendo uma imensidão de mar ali à frente.

E o que fomos nós, portugueses? Manetas perante as dádivas da geografia que nos pôs o oceano diante dos olhos. Este homem sofre o destino de Tântalo no seu suplício.Tântalo foi condenado pelos deuses a um destino trágico: padecendo de uma sede terrível, e com água mesmo por baixo da sua boca, vê esta afastar-se sempre que mexe o queixo para a beber. Este homem tem igualmente um trágico destino. Tem um braço para nadar, mas falta-lhe um outro que o impede de nadar. Ele sonha e deseja mas depois é sempre traído pela sua finitude.
Torna-se mesmo fácil imaginar aqui uma lógica narrativa. Ver o homem a caminho do mar, a mergulhar, a sua atrapalhação ao nadar e, depois, o seu regresso, ecoando nos seus ouvidos os gritos estridentes daquela criança do Restelo que oconfronta com a sua própria miséria e desgraça como se fosse um coro grego.

2 comentários:

Rosa Oliveira disse...

Parecia que me estava a ler, não fosse ter escrito como não costumo escrever.
Tão verdade o que diz... e nauseia já.

Micha disse...

Teu texto consegue o impossivel, ou seja, colocar esta foto tao forte em segundo plano e fica a sensacao de que a foto ja nao pode existir sozinha. Parabens!