16 janeiro, 2009

MACBETH

Pronto, é a última vez que faço isto. Mas há gente cujos pedidos não se recusam. Pedem-me que transcreva para aqui uma outra velha crónica minha no JT. Isto foi escrito pouco antes de Macbeth ir à cena no Teatro Virgínia.


Nas tardes de sexta-feira respira-se um ar pesado. Não sei, exactamente, de onde vem e como vem. É como se, bem no fundo do dia, mão maléfica de bruxa remexesse em caldeirão de onde se vai exalando um odor de enxofre que, deslizando ao longo dos corredores, sobe à flor da cada nervo. Há sempre um aluno que parte um vidro, há sempre um professor que perde, definitivamente, a paciência. As tardes de sexta-feira não são boas. Por isso, gosto de acabar o dia entre coisas que me distraiam dos habituais rodopios do desassossego.
Mas, numa destas sextas-feiras, passei de umas bruxas para outras. Para as bruxas que abrem o Macbeth de Shakespeare. Perguntará o leitor onde me fui eu meter. Nada de invulgar: fui ao Teatro Trindade ver Macbeth, na encenação de Bruno Bravo, com João Lagarto no principal papel.
O Teatro Trindade é aquele onde, n’ Os Maias, se realiza o sarau para onde o narrador aponta a sua luneta crítica. A vida cultural lisboeta, alguma mediocridade e algum génio, alguma indiferença e algum desinteresse passam pelo Trindade na noite do sarau. É, ainda, à saída do teatro, que João da Ega encontra o senhor Guimarães que, ocasionalmente, lhe faz saber que Carlos e Maria Eduarda são irmãos. Um teatro de romance, restaurado e bonito, com um foyer acolhedor e uma sala onde é fácil imaginar o barulho das sedas roçagantes que vestiam as burguesinhas da Regeneração.
Mas, desta vez, nada de medíocre se passava no Trindade. As Produções Teatrais Próspero levavam à cena Macbeth.
Lá estavam as bruxas a abrir a peça, profetizando a Macbeth um futuro que era o seu desejo. Legitimado por essa concordância do sobrenatural e pelo incitamento de lady Macbeth, cujo amor por ele é tão intenso quanto o desejo de ser rainha, o nobre escocês não hesita. Cada assassínio perpetrado é mais um passo num caminho de onde não há regresso possível. Há fronteiras que, ultrapassadas, não permitem o retorno. Macbeth, uma vez instalados a culpa e o remorso, também aprenderá que há sítios de onde não se volta.
Convenhamos: não é fácil representar Shakespeare. Os actores, habituados às articulações de uma sintaxe mais coloquial, respiram em esforço nestes monólogos trágicos. Mas fazem-nos. E merecem todo o aplauso por isso.
E merecem aplauso os figurinos que ilustravam bem a Escócia medieval e agreste, os cenários e a luz que tanto foram capazes de compor uma cena de banquete, bela como uma pintura, como de fazer pairar, em fundo, a sombra do espectro. E os espectros shakespeareanos são bem difíceis de figurar.
Quando saíamos, uma chuva miudinha descia a Rua Nova da Trindade. Do Ega e do senhor Guimarães não havia sinal. N’ Os Maias, o Realismo perdera a parada e o Acaso tomava as rédeas da intriga. Lá dentro, os Macbeth mergulhavam no seu sono medieval de monstros e bruxas voadoras.
Eles acordam, este sábado, no Virgínia. Lá pelas nove e meia.

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