18 janeiro, 2009

GRANDES FILMES- ALFRED HITCHCOCK: VERTIGO (1958)


O problema da identidade e, dentro deste problema, o problema específico do "eu", é um dos mais estimulantes da filosofia.

Imaginemos a seguinte situação: um tipo violentíssimo comete um crime tenebroso sem nunca chegar a ser descoberto. Ou melhor, será descoberto vinte anos mais tarde. Só que, cinco anos antes disso, teve um problema cerebral que o deixou incapaz de se lembrar de factos ocorridos anos antes. Mais: o acidente mudou radicalmente a sua personalidade, tornando-se uma pessoa bondosa, preocupada com os outros, dedicando-se mesmo a actividades de voluntariado.

Perante a acusação, fica horrorizado. Não se lembra de nada e, sendo a pessoa que é actualmente, não concebe sequer a possibilidade de ter cometido qualquer acção desse tipo. Ora bem, assim sendo, o "eu" actual é identico ao "eu" anterior"? A terrível pessoa que cometeu o crime é a mesma pessoa bondosa que vive para ajudar os outros?

John Locke, no "Ensaio sobre o Entendimento Humano", acha que não. Diz que se a mesma pessoa tiver "consciências distintas e incomunicáveis em momentos diferentes, sem dúvida que o mesmo homem pode, em momentos diferentes, constituir pessoas diferentes".

Vertigo não é apenas um grande filme, como, aliás, quase todos os filmes de Hitchcock. Tem tudo o que têm quase todos os seus filmes: suspense, mistério, intriga, surpresa. Não é o meu Hitch preferido mas, juntamente com "A Corda", será o mais filosófico de todos eles. Se ainda não o viu, aconselho vivamente a fazê-lo. Irá depois perceber porquê.

3 comentários:

Micha disse...

Belo post...e dentro do "perder a memoria", cinema e reconstrucao do eu (com objetivos diferentes)segue mais 2 filmes para a lista: Amateur (Hal Hartley) e Memento (Christopher Nolan - tambem diretor do belissimo, Following) Boa semana!

José Ricardo Costa disse...

Irei, quando for possível, seguir as sugestões. Thanks! Boa semana.

JR

José Borges disse...

Eu cá não gostei do "Memento", achei o argumento e a realização pouco interessantes, apesar de poder ter algo de inovador na apresentação da trama. A propósito da memória ficou-me um que vi hoje, o "Abre los ojos" do Alejandro Aménabar.