21 janeiro, 2009

A CULPADA


Chamava-se Suzanne Yvonne Henriette Marie Galopet. Era actriz, com o nome de Suzanne Gabriello. Em 1959, separou-se de Jacques Brel. Foi para ela que ele gritou:

"Laisse-moi devenir
L'ombre de ton ombre,
L'ombre de ta main,
L'ombre de ton chien.
Ne me quitte pas."

Dizia hoje a minha colega Rosa Lourenço, e bem, que isto não é uma canção de amor: é uma canção de rastejar. Tem razão. Isto não se diz a ninguém. Pode pensar-se, mas pensar muito baixinho.
Todas as versões que se conhecem de Ne me quitte pas são versões de palco, com um toque de mise-en-scène.
Esta é a versão original.



Eu, que tenho mau feitio, que sou orgulhosa, teimosa, casmurra, se calhar ... se calhar ... muito provavelmente não o teria deixado.

4 comentários:

Alice N. disse...

Belíssimo tema. Letra trágica, interpretação como só Brel conseguia, mas não posso deixar de sorrir sempre que leio/oiço estes versos - isto porque, segundo um eminente fadista (que aprecio), o ser que assim grita a sua dor está disposto a tudo para não perder a sua amada, até mesmo ser "o ombro do seu cão". Delirante!

Anónimo disse...

Absolutamente impressionante!

Não tem nada a ver... Eu é que tenho assim umas tonteiras... Mas... E ainda há uns detratores dos anos 60!!!!!!

jl

jony dji disse...

Tu não o terias deixado assim como não foi Suzanne que o deixou (contrariamente ao que transparece da letra) :p

Após a separação Suzanne abortou porque Brel recusou a paternidade da criança. Mais tarde Jacques Brel afirmou que "Ne me quitte pas" não era uma canção de amor, mas sim uma canção sobre a cobardia do homem.

Para mim é uma das mais lindas canções de amor de sempre :-) (sem rastejanços nem enchimentos)

Ivone Mendes disse...

Caro jony dji

Eu sei os detalhes da história mas obrigada,em todo o caso.

Este post surgiu de uma conversa entre amigos que desconheciam a quem Brel pedia que lhe deixasse ser a sombra da sombra dele.

O título do post "A culpada" é, obviamente, uma metáfora.

Como sabe, se não falho, em 62, Suzanne morreu de cancro. Eles já devem ter acertado as contas há muito e "Ne me quitte pas" continua a ser o que é.

Curiosamente, uma filha de Brel afirma, numa entrevista antiga, que o pai era o contrário do que podia parecer ao ouvi-lo cantar. Dizia que ele era um "bourgeois" igual aos que vilipendiava nas canções.

Depreendo que o Jony dji seja rapaz novo. Permita, então, algumas sugestões de quem já muito viu e ouviu.

1. Não se diz a ninguém "Ne me quitte pas". Pode viver-se em desespero, não se vive sem amor próprio.

2. Se, apesar de tudo, existirem razões para tal súplica, não se precupe com a enunciação dessas razões. Preocupe-se com as palavras que usa e com o tom com que as diz.

3. Nenhuma mulher deixará de o deixar por muito válidas que sejam as razões para o não fazer.
Muitas ficarão pelas veemência do que disser, pelo olhar com que o disser.

4.O significante, mais do que o significado,tem um efeito extraordinário sobre as pessoas.

Ora, vamos à última frase do meu post. Eu teria ficado pelos exageros poéticos,pela intensidade, pela força das frases.
Isso não significa que, uma semana depois, não fizesse as malas e não fosse embora de vez.

Obrigada pela sua visita,

Ivone Mendes