30 janeiro, 2009

CONHECIMENTO E CRENÇA

Floriano Abrahamowicz, padre integrista católico, veio aumentar a polémica acerca das câmaras de gás dos campos de concentração nazis, defendendo a ideia de que terão servido para desinfecção. Trata-se de uma questão histórica. A mim, agora, interessa-me apenas o ponto de vista filosófico, mais concretamente, num sentido epistemológico.

O conhecimento que temos acerca das câmaras de gás é indirecto, igual a muitas outras coisas que sabemos (ou julgamos saber) e que resultam de um "ouvir dizer". Por exemplo, como sei que houve um rei chamado Afonso Henriques? Por "ouvir dizer". Sei que mora um homem no meu prédio que usa um sobretudo castanho. Sei que há um rapaz que leva todos os dias o cão à rua. Mas o modo como eu sei que houve um rei Afonso Henriques não tem nada que ver com estes conhecimentos.

Podemos dizer que posso saber isso porque são os historiadores que me ensinam e saber uma coisa pelos historiadores não é o mesmo que saber através de um vizinho, o qual até pode ser um mentiroso compulsivo. E se os historiadores o dizem é porque têm provas documentais. Sim, mas eu não sou historiador e, assim sendo, nunca vi tais provas. Tenho, portanto, de acreditar na boa fé e honestidade intelectual dos historiadores que me dizem ter havido um rei com esse nome.

E em relação ao holocausto? E às câmaras de gás? Ora, eu fico indignado ao saber que um padre integrista nega tais factos. Porquê? Porque são factos históricos. Mas como posso saber eu, não sendo historiador, que são factos históricos? Porque acredito nos historiadores, que nem sei quem são. Eu nem sequer alguma vez vi um historiador olhando para mim, nos olhos, dizendo que houve holocausto. Trata-se, sobretudo, de um "diz-se" enquanto fonte e de um "ouvir dizer".

Eu fico indignado, não por "saber" que é "verdade" ter havido holocausto (do mesmo modo que sei que há um vizinho com um sobretudo castanho), mas porque quero que seja verdade, quero acreditar que seja verdade. Poder acreditar, agora, que não é verdadeiro, implicaria, da minha parte, uma reformulação radical deste acontecimento da história do século XX e o ter de assumir que a minha fé na ciência teria de ser posta em causa.
Indignemo-nos, portanto.

2 comentários:

addiragram disse...

O questionamento e a dúvida são fundamentais, mas a crença nos muitos que se dedicam a investigar um tema também o é...Tenho também a crença e o conhecimento de há seres humanos que funcionam psicológicamente de um forma particular, negando as "verdades" e recriando as suas verdades.

José Borges disse...

Excelente!