09 janeiro, 2009

COISAS ANTIGAS

A minha colega Célia Patrícia telefonou-me há meia-hora para me desejar umas Boas-Festas tardias. E para me pedir que publicasse aqui uma crónica, que escrevi sei lá quando, no Jornal Torrejano. Diz que é a preferida dela e que ficava aqui bem. Ainda refilei um bocadinho mas, como na dissertação de mestrado, ela teve a gentileza de inserir duas pequenas traduções minhas, lá tenho de ir agora procurar o texto que ela quer ver aqui.
Fiquem a Inês Vidal, João Carlos, e outros, a saberem que o JT é lido bem longe de Torres Novas. As minhas crónicas no JT foram coisa ocasional e insignificante. Como diz o meu querido e erudito amigo José Manuel Ventura, eu sou, nisto da escrita, muito bissexta.
Ora bem, lá vai então, a pedido da moça, o texto das roupas, como ela lhe chama.


Roupagens

Na semana passada, alguns cinemas estrearam TERESA, o corpo de Cristo, de Ray Loriga , com Paz Vega no papel de Santa Teresa de Ávila.
Ontem, ao olhar para o cartaz promocional, vi que o guarda-roupa é assinado por Eiko Ishioka. Como o leitor se lembra, esta a senhora ganhou o Óscar para o melhor guarda-roupa, em 1993, com o Drácula de Coppola. E há-de lembrar-se, também, do prodígio arquitectural dos vestidos das vampiras, dos diferentes tons de branco, do branco-chumbo das sedas, do branco ebúrneo do cetim duchesse, do branco irisado da seda moirée. E era um não mais acabar de capas de veludo, cujos capuzes pareciam ter vida própria em redor dos rostos macerados.
Pronto, já sei, o leitor começa a perder a paciência. Começo a falar de um filme e para aqui estou a falar de roupa. Sabe, temos de aprender a olhar para um filme como um todo. Tão importante é a acção, como é o guarda-roupa, como é a música. Olhe, por exemplo, tire lá o som a um filme de terror e diga-me o resultado.
Veio-me agora à cabeça uma imagem de O Inocente de Visconti. É uma cena breve, uma cena no jardim onde uma mesa está, primorosamente, posta para o chá da tarde. Aquela mesa não é relevante para a acção mas tirá-la de lá, estragaria toda a cena.
Ainda lhe conto outra história. A meio das filmagens de E tudo o vento levou, os produtores debatiam-se com dificuldades financeiras. Vivien Leigh, que usava, por baixo das amplas crinolinas de beldade sulista, saiotes e saiotes de renda caríssima, foi ter com David Selznick e sugeriu trocar toda aquela renda por outro material mais barato, uma vez que os saiotes não se viam e nada se perdia com isso. Conta-se que Selznick respondeu, calmamente: “Tu representas a filha de um fazendeiro rico da Geórgia. Tens de te sentir a filha de um fazendeiro rico da Geórgia.”
Estas coisas de roupa não são tão inócuas como podem parecer e não estou só a falar do cinema, estou a falar da vida, dos momentos que se vivem.
O meu amigo leitor já viu filmes ou documentários do tempo da guerra? Deve ter reparado que as saias das mulheres eram justas, pela altura do joelho. Seria um capricho da moda? Nada disso. As fábricas de têxteis produziam pouco, todo o esforço se dirigia para a indústria da guerra, era preciso racionar, racionar tudo, o sabão, o arroz, o tecido gasto na roupa.
Na Primavera de 1947, um jovem costureiro parisiense, Christian Dior, lançou uma colecção que a directora da Harper’s Bazaar americana, Carmel Snow, baptizou com o nome com que ficaria conhecida: New Look.
E o que era o New Look? Se o leitor tiver aí em casa umas fotografias antigas da sua mãe ou das suas tias, vai logo perceber o que é: umas imensas saias rodadas, talhadas em chapéu-de-sol (pergunte a uma tia mais velhinha o que é uma saia talhada em chapéu-de-sol que ela explica-lhe). Eram usados metros de tecido porque as saias, não só eram muito amplas, como, segundo os ditames, a altura da bainha devia ficar a 40 cm, medidos, rigorosamente, a partir do chão e já com a senhora de sapatinhos calçados.
Ganhavam as mulheres, que ficavam mais bonitas, ganhava a indústria têxtil.
Quer o ouvir o que Dior disse, numa entrevista, em 47? “Nós saímos de uma época de guerra, de uniformes, de mulheres-soldados, de ombros quadrados e estruturas de boxeur. Eu desenho femmes-fleurs, de ombros doces, bustos suaves, cinturas marcadas e saias que explodem em volumes e camadas.”
Pois é. Estes assuntos de roupa não são nem simples nem fúteis. Se o fossem, um homem tão sério como Roland Barthes nunca teria escrito O sistema da moda, um livro onde explica estas coisas todas.
Ai, os deuses me valham! Eu queria era falar do guarda-roupa que Eiko Ishioka desenhou para Teresa de Ávila. Olhe, fazemos assim: primeiro o meu amigo vai à procura de uma imagem do Êxtase de Santa Teresa, de Bernini. Olha com atenção para os refegos e pregas da roupa em desalinho e fica a pensar como é que o escultor conseguiu fazer aquilo com o mármore. Depois, vai ver o filme. Veja a curva do escapulário no hábito das monjas, veja o interior de um capuz, numa cor indizível entre o cinzento e o azul plúmbeo. Veja tudo.
Depois, voltamos a conversar. Ficamos combinados?

1 comentário:

addiragram disse...

A sua colega Célia Patrícia sabia o que dizia! Depois de ler apetece re-ler para, depois, com calma e tempo, comentar.