19 janeiro, 2009

CANTIGAS DE DESAMOR


Ouvem-se histórias daqui e dali, comentários soltos, lamentos tímidos.

À nossa volta, há uma multidão de homens profundamente infelizes, amarrados a casamentos que nem prisões de alta segurança. Casamentos que não desejam e dos quais não conseguem, por mais que queiram, soltarem-se.

Elas não amam o marido, amam a segurança doméstica, amam um ordenado maior do que o delas, amam que ele vá buscar as crianças ao infantário, amam companhia quando lhes apetecer ir ao cinema. Não amam as músicas que eles amam, não reviram o mundo do avesso para encontrar o livro que eles gostariam de ter.

Os infelizes já se tornaram como na canção do Chico Buarque: "Não têm gosto nem vontade/Nem defeito nem qualidade/Têm medo apenas."

Porque, vistas de fora, ah sim!, são tão perfeitinhas, tão boas mães, tão poupadinhas. Fechada a porta do lar conjugal, crescem as unhas da Harpia, a perfeitinha transforma-se em Hidra.

Por mais que eles tentem, elas atacam. Um pequeno indício, um olhar sonhador dele e lá surge uma gravidez oportuna. Lá surge mais um filho a prendê-lo ao lar. Há quem adopte uma outra estratégia: em vez de engravidarem, adoecem. E as doenças são sempre muito graves. Como pode um pobre o homem sair de casa nestas condições?

Elas pesam-lhes na consciência, fazem-nos ter remorsos, não do que fizeram mas até do que nem se atreveram a sonhar que podiam conseguir, um dia, ter. Mas tudo, claro, por uma boa razão: o lar, o lar conjugal que é preciso preservar a qualquer custo.

Elas sabem as manhas todas. Só não sabem cultura romana. O lar era, na casa romana, a fogueira. Cá para mim, quem anda demasiado perto do lume acaba por se queimar.

Eu vejo-os por aí. Alguns já se resignaram, envelhecem, de ombros curvados, ao longo das ruas da cidade.
Para eles, este texto de David Mourão Ferreira.



FALA APÓCRIFA DE DOM DINIS


"Toda a vida cantei.
(Ou foi pedir socorro?)
Jogral,
em meu pinhal,
o próprio vento canta.
Mas sei, enfim, que morro
desta fome que é ter
por mulher
uma Santa.

Jogral, em meu pinhal,
já só o vento canta."



1 comentário:

Alice N. disse...

Belo título, com uma nota poética que torna ainda mais tristes esses cenários de terrorismo matrimonial que descreve ou, para ser mais branda, de estranho parasitismo conjugal.

"Amor é fogo que arde sem se ver", dizia o Poeta... Mas o seu texto lembra que não há nada mais devastador do que as cinzas do amor...