01 dezembro, 2008

O MEU PAÍS QUE O MAR NÃO QUER


"No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça

Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul

que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente cala-se e mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol

No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente

E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol

Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe,
atenta a gravidade do momento

O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz do dia
pois a areia cresceu e a gente em vão requer
curvada o que de fronte erguida já lhe pertencia

A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer"

Ruy Belo, Morte ao Meio-Dia


Muito antes de termos sido dados para adopção à União Europeia, poderíamos ter sido adoptados pelos espanhóis. Nunca li, até hoje, melhor explicação para Portugal do que esta que nos é dada pelo poeta: O meu país é o que o mar não quer. Nós olhamos para o mapa e perecebemos logo as ondas do mar e as correntes a atirarem-nos para terra. Mas os espanhóis quiseram-nos, fomos desejados por eles, vieram ocupar-nos, não para nos esmagar mas para nos adoptar. E nós poderíamos ter aproveitado.

Respondendo aos mais cépticos: continuaríamos a ser do Benfica, Sporting ou Porto como os espanhóis são do Barcelona, do Coruña ou do Sevilha. Continuaríamos a falar português (a nossa pátria, não é verdade?), continuaríamos a comer bacalhau no Natal e os bolinhos nos Santos, continuaríamos a festejar os Santos Populares, tão portugueses como agora, continuaríamos a passar os fins-de-semana fechados em centros comerciais. Em tudo o resto, estaríamos melhores.

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