31 dezembro, 2008

O CAVALO DE APELES

Sexto Empírico não parece nome de gente. Mas é nome de filósofo, de um filósofo ligado à tradição céptica.
Nas suas Hipotiposes Pirrónicas, fala de uma conhecida história passada com Apeles, um grande pintor grego do século IV a.C. Depois de pintar um cavalo, quis criar um determinado efeito: pintar a espuma no focinho. Tentou, tentou, tentou. Não conseguiu. Desesperado, renuncia a tal tarefa, atirando uma esponja contra a pintura.
Espantado, apercebe-se então que com esse movimento de renúncia, por mero acaso, acabara finalmente por criar o efeito que intencionalmente procurava sem conseguir.
Ora bem, onde pretende Sexto Empírico chegar com esta história? É ele próprio que o diz no Livro I das Hipotiposes, comparando a atitude dos filósofos cépticos com a do pintor Apeles: “Os cépticos pretendiam alcançar a tranquilidade decidindo sobre as anomalias em relação às sensações e aos pensamentos, e incapazes de conseguir isto, suspenderam o juízo. Ao fazê-lo, entretanto, descobriram que, como que por acaso, a tranquilidade seguiu-se à suspensão, como uma sombra segue um corpo”.
Peço desculpa pelo excerto, numa altura em que queremos mais festejar do que pensar, mas pode ser útil para entrarmos bem em 2009.
Quando pensamos no futuro, temos sempre o cuidado de distinguir o que devemos ou não devemos fazer, o que queremos e não queremos, e guiamo-nos por aqui. Só que a vida também nos ensina que as coisas nem sempre são assim tão simples.
Imaginemos um acidente de automóvel no qual uma mulher fica ferida. Dramático. Mas suponhamos que, no hospital, um enfermeiro e a condutora se apaixonam e serão felizes para o resto da vida.
Mas também podemos imaginar alguém que toda a vida quis ser músico de uma grande orquestra, que aprendeu clarinete durante anos à custa de muitos sacrifícios e, quando finalmente tem a oportunidade de concretizar o seu sonho, morre atropelado numa passadeira quando se dirigia para o primeiro ensaio.
A vida está cheia de lições mas lições que nem sempre podemos aprender. Ora, se assim é, se não há critérios absolutos para avaliar o que devemos ou não fazer, como devemos então reagir?
Segundo Sexto Empírico, através da suspensão (epochê) e da tranquilidade (ataraxia). O que quer isto dizer? Bem, eu não tenho muito espaço para explicar, digamos apenas que há nesta suspensão e tranquilidade uma certa aceitação dos factos.
Não se trata de uma crença no destino, uma aceitação da fatalidade, um cruzar de braços perante as adversidades da vida, um fechar de olhos perante os problemas. Nada disso.
Trata-se antes de uma espécie de imunidade perante as adversidades e de criar alguma distância perante certas verdades aparentemente infalíveis. O dinheiro faz uma pessoa feliz? Não sei. Uma doença terá de ser uma coisa necessariamente má? Não sei. Não sei? Sim, não sei. Há pessoas que só começaram verdadeiramente a viver depois de terem sobrevivido a um cancro.
Portanto, agora que vamos começar um novo ano, pense no gesto de Apeles e nos sábios ensinamentos de um velho filósofo grego sem nome de gente: preocupe-se, sim, mas tenha calma. Muita calma, sim? E cuidado com as verdades avassaladoras que nos querem impingir.
Memorize estas palavras: “epochê” e “ataraxia”. Nunca se sabe se poderão dar algum jeito em 2009.
Jornal Torrejano, 31 de Dezembro de 2008
Um bom 2009 para todos os que costumam visitar este blogue.

2 comentários:

Alice N. disse...

Sábio conselho! (Suspeito que vou precisar de o reler algumas vezes ao longo do ano...)

Bom 2009 também para os autores deste espaço único e absolutamente indispensável.

Alice Nascimento

José Ricardo Costa disse...

Alice, um bom ano também para si. Pois, os clássicos são sempre os clássicos!

JR