19 dezembro, 2008

A NOVA BIBLIOTECA

La Boétie não é um daqueles filósofos cujo nome tenha ficado gravado na história da Filosofia com letras de ouro como ficaram os de Platão, Descartes, Hume ou Kant. O mesmo não se pode dizer daquele que terá sido o seu melhor amigo e que o acompanhou nos seus últimos dias de vida: Montaigne. Esse mesmo, o dos famosos Ensaios, uma das obras fundadoras do cepticismo moderno.
La Boétie deixou, em herança, ao seu grande amigo, o seu bem mais precioso, não um castelo, um palácio, terras ou dinheiro. La Boétie deixou a Montaigne a sua biblioteca.

Ora, eu não vejo que melhor herança se pode receber de um grande amigo. Pronto, está bem, podemos objectar, inspirados pelo nosso lado consumista, que o dinheiro, bens imobiliários ou fundiários, dão sempre um enorme jeitinho e podem ajudar a encarar o futuro com outro alento.
Mas se pensarmos na amizade no seu sentido mais elevado, a amizade no seu sentido aristotélico ou epicurista, logo percebemos que herdar uma biblioteca de um amigo, será o melhor que dele podemos receber.

Ao herdar a biblioteca de La Boétie, Montaigne recebeu bem mais do que livros. Pôde folhear, nos seus silêncios nocturnos, as páginas que o amigo folheou nos seus silêncios nocturnos. Ler as páginas que o amigo leu terá permitido a Montaigne entrar nas páginas que ajudaram La Boétie a ser quem foi: as páginas dos clássicos que o levaram a viajar por tempos remotos, as páginas de Filosofia que o formaram intelectualmente, as páginas literárias que lhe deram boas experiências estéticas, que lhe estimularam a imaginação, que o emocionaram e divertiram.

Deixemos agora a biblioteca de La Boétie e passemos à biblioteca de Torres Novas. Os milhares de livros que fazem partem do seu espólio, muitos dos quais atravessaram várias gerações, são também uma valiosa herança que recebemos do passado.

Do mesmo modo que a biblioteca herdada por Montaigne não é apenas um conjunto de livros, também os livros da biblioteca são muito mais do que livros. São um testemunho. Não no sentido histórico, como por exemplo, dizer que Os Lusíadas são um testemunho de uma época específica da nossa História, mas no sentido desportivo do termo, ou seja, o testemunho que é usado nas provas de 4x100 ou nas de 4x400.
O testemunho é o que faz a ligação entre o que veio antes e o que virá depois. Se o testemunho cair para o chão a prova acaba. Havendo testemunho, os que começaram primeiro a correr param, mas continuam em prova graças aos que vêm depois, do mesmo modo que estes só podem começar a sua prestação se receberem o testemunho dos que vieram antes.

Ora, que melhor testemunho haverá para estabelecer a ligação entre épocas diferentes do que os livros? Ninguém ler a Odisseia significa que o facundo, astuto e aventureiro Ulisses fica esquecido e adormecido nas páginas de um livro. Porém, sempre que alguém lê a Odisseia, Ulisses volta a renascer. Mas não é só Ulisses que renasce. É a Grécia que renasce, é o mito que renasce, é o tempo que volta a ser reencontrado, dando raízes ao nosso presente.

Quem fez a nova biblioteca de Torres Novas merece ser amplamente elogiado. Porque ao fazer-se um edifício com aquela qualidade, está-se a dar um sinal claro da sua importância e do seu valor. Quem quis aquele edifício e gastou dinheiro naquele edifício está claramente a querer dizer-nos que aquele edifício merecia ser feito e merecia aquele dinheiro.

Há valores que não têm preço, e o valor da cultura, da ligação entre gerações, do tempo reencontrado, é um deles. Numa época como a nossa, em que a escola é cada vez mais um espaço de decadência e de caos, e os valores transmitidos aos alunos são exactamente o oposto do que deveriam ser numa sociedade sã e equilibrada, fazer-se uma biblioteca como a de Torres Novas só pode merecer o nosso aplauso.
In Jornal Torrejano, 19 de Dezembro de 2008

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