29 dezembro, 2008

LEIGOS E INTELECTUAIS


Sigamos, com atenção, o seguinte texto de Augusto Manuel Seabra, tirado daqui:
"É importante notar, de resto, que o próprio Carter refere numerosos exemplos precedentes da sua metodologia e princípios composicionais na história da música, os madrigalistas e virginalistas inglesas, os cravistas franceses, as cenas de óperas de Mozart, Verdi ou Mussorgsky em que ocorrem acções paralelas com diferentes tempos e métricas, etc. Compreende-se assim que tenha retomado à sua própria maneira a noção de concerto, “concerto grosso” ou concerto solista, de obras para diferentes grupos instrumentais ou mesmo de episódios musicais separados. Como se compreende que o tempo e as temporalidades, uma concepção não-teleológica do tempo e da obra musical lhe sejam axiais – não há em Carter um princípio para chegar a um fim, o que o distingue não apenas dos princípios da tonalidade funcional como das concepções ontogenéticas do material nas correntes seriais e post-seriais.
Esta recusa do “pensamento teleológico”, com constantes acontecimentos e transformações, nada tem a ver com a concepção recorrente, simbólica e teológica do tempo musical que há em Messiaen - como em T.S. Elliot, ou pelo próximo, há em Messiaen não o "eterno retorno" de Nietzsche mas um retorno incessante, "O tempo presente e o tempo passado/ Estão ambos talvez presentes no temo futuro/ E o tempo futuro contido no temppo passaado". Isso é o que radicalmente diferencia os dois compositores e no entanto também os aproxima enquanto singulares conceptualizadores do Tempo.
Por outro lado, pesem ainda algumas suas inusitadas combinações e/ou oposições instrumentais, Carter não é um colorista e pensadores dos timbres como Messiaen (é de notar por exemplo que escreveu cinco quartetos de cordas e o outro obviamente nenhum, pois não se imagina Messiaen trabalhando com um conglomerado tímbrico tão próximo), e pesem ainda a mobilidade e sobreposições não é, ao contrário do outro, um polirritmista.
Elliot Carter é antes do mais um construtivista, altamente complexo, mas em cuja música todavia se percepciona o movimento, o trajecto, a direcção das linhas musicais – e pois que evoquei tê-los vistos juntos em Varsóvia, em 1985, a ele e a Lutoslawski, ocorreu-me durante estes concertos na Casa da Música pensar que são dois diferentes mestres da direccionalidade, questão que hoje, contra a expansão magmática característica do pensamento ontogenético, é de novo de tanta actualidade."

Pronto, está lido. Obviamente que se trata de um texto difícil, erudito, cheio de referências técnicas de um ponto de vista musical. Perante textos deste tipo há, habitualmente, dois tipos de reacção: ou rejeitar por completo a sua leitura ou, muito pior do que isso, acusar quem assim escreve de "pedantismo", "exibicionismo", "intelectualismo serôdio".

Acho tais reacções erradas. Embora entenda que deverá existir algum didactismo no modo como expomos as nossas ideias aos outros, temos também de perceber que, por vezes, o leitor também terá de se esforçar e fazer algum trabalho de casa. Eu posso não entender logo o que é um "pensador dos timbres", "construtivismo" ou "teleológico". Mas posso arregaçar as mangas e ir à procura. E, depois, ouvir a música e tentar perceber se bate a bota com a perdigota, ou seja, se a análise faz algum sentido perante a música que estou a ouvir.

Nem sempre terão de ser os intelectuais a descer ao leigo. O leigo também deve, muitas vezes, tentar chegar aos intelectuais.

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