21 dezembro, 2008

DÁNAE E O NATAL

Lembrei-me da história de Dánae e da chuva de ouro.

Graças a uma profecia, o rei Acrísio soube que haveria de ter um neto que o iria matar. Apavorado, fechou a filha, a formosa Dánae, numa prisão, apenas acompanhada por uma criada. Deste modo, Dánae não teria filhos e Acrísio já não teria netos.

Zeus, que tinha visto Dánae, apaixonara-se por ela. Zeus era de paixões desenfreadas e não conseguia resistir à beleza de uma mortal. Como fazer então com Dánae? Vendo que a cela tinha uma pequena fresta, Zeus transforma-se então em chuva de ouro que vai banhando o corpo alvo de Dánae. Nove meses depois nasceria Perseu. Neto de Acrísio...


O episódio está amplamente retratado na história da pintura. A versão que se vê em cima é de Ticiano, o grande mestre veneziano. Só à sua conta existem quatro versões. Esta é de 1553 e, tal como em outras duas, surge a criada. Mas há uma de 1545 onde Dánae está sozinha com um anjo. Obviamente, é dessa que gosto mais. Porém, é mesmo sobre a criada que eu quero agora falar.


Vejamos como Dánae recebe com naturalidade a chuva de ouro sobre o seu corpo, a mesma naturalidade com que uma mulher recebe o seu amante. Mas, se virmos bem, nada daquilo é natural. Não é o mesmo que olhar para uma parede branca e dizer que a parede é branca. É um momento de grande intensidade poética e de presença do Maravilhoso: um deus que se metamorfoseia em chuva de ouro para cair suavemente sobre o corpo nu de uma mulher.


Ora, como reage a criada face à presença do Maravilhoso? Em vez de, tal como Dánae, pactuar com o Maravilhoso, agarra no avental e começa avidamente a apanhar as gotas de ouro. Cega perante o Maravilhoso, não vê a chuva de ouro banhar o alvo corpo de uma mulher que a recebe em puro deleite. Vê apenas dinheiro e o seu único desejo é apanhar o mais possível.


Vamos mesmo imaginar que teria conseguido apanhar todas as gotas de ouro. Seria o fim do enlace entre um deus tranformado em ouro e o alvo corpo nu de uma princesa. E não teria nascido Perseu, o herói que matou a horrível e abjecta Medusa.


Eu lembrei-me deste quadro de Ticiano por causa do Natal. Do Natal na época do desencantamento do mundo no qual parecemos cada vez mais a criada do quadro de Ticiano. Crianças, jovens, adultos, todos de avental estendido, vendo dinheiro onde existe uma mágica chuva de ouro que vai dar à luz o filho de um deus.


O desencantamento do mundo não é apenas o resultado da morte de Deus e da crise da religião. Podemos já não acreditar que existem fadas no fundo do jardim mas isso não nos impede de continuar a descobrir a apreciar a beleza do jardim. O desencantamento do mundo é cada vez menos um simples desencantamento religioso para ser cada vez mais apenas desencantamento. Ou já não se vai ao jardim ou, quem lá vai, sente-se exilado perante a incompreensão de um mundo ao qual já não se pertence.


Ainda bem que a criada de Dánae não conseguiu apanhar as gotas, ou melhor, as moedas todas. Nasceu Perseu e a temível Medusa teve o destino que merecia.Mas muitas outras Medusas que nos transformam em pedra ficaram por matar.
A alegria do Natal, a alegria pelo Maravilhoso do Natal é quimicamente induzida pelo subsídio de Natal. Aliás, Natal é cada vez mais a época do subsídio Natal. O musgo do presépio e as velas alimentadas a azeite deram lugar às luzes dos shoppings centers. O Menino Jesus foi trocado por um velho gordo patrocinado pela Coca-Cola. As figuras do presépio foram assassinadas e substituídas pelos monstros de plástico da Matel. O frio silêncio do Inverno foi abafado pelo aquecimento global das televisões sempre ligadas e vomintando jingles comerciais. Estava tudo previsto há muito tempo.

2 comentários:

addiragram disse...

Um Bom Natal, com todas as réstias possíveis da infância!
Gostei muito do texto.

Xantipa disse...

E eu que sempre achei que a criada estava assim como que a servir de preservativo: se o ouro não tocasse no corpo da princesa, não haveria fecundação...
Esqueço-me sempre do óbvio.
:)
Um abraço