28 dezembro, 2008

DIÁLOGO DE SURDOS

No Público de ontem, vinha uma fotografia de Bento XVI ao lado do físico Stephen Hawking. No passado mês de Outubro Bento XVI juntou no Vaticano teológos e cientistas para, em conjunto, reflectirem sobre as relações entre a fé e a evolução. Por baixo da fotografia estava um pequeno texto onde se podia ler a seguinte passagem: "O físico britânico nunda disse que acreditava em Deus, mas também nunca negou a sua existência".
Ora bem, eu não consigo evitar um enorme cepticismo relativamente a estes encontros entre cientistas e teólogos, do mesmo modo que não acredito em qualquer discussão entre um ateu e um religioso. Porquê? Porque se trata de dois registos completamente distintos, com pressupostos, regras e objectivos completamente distintos.
Quando um teólogo discute a existência de Deus não está, como um cientista, racional e imparcialmente em busca de uma verdade. A sua preocupação não é a verdade mas a sua sobrevivência. Quando um ateu defende a não existência de Deus encontra-se no puro plano das ideias. O ateu não acredita porque acha que não deve acreditar, porque as suas ideias, o seu pensamento, a sua sensibilidade, leva-o a não acreditar. Mas, do ponto de vista da sua vida pessoal, é indiferente que Deus exista ou não. O ateu não vive como ateu. Não foi baptizado como ateu, não casou como ateu, não é enterrado como ateu, não há festas ateias, não há liturgias ateias, não há uma instituição ateia, a própria sociedade não vive de acordo com regras morais explicitamente ateias. Mais: para o ateu até se torna desconfortável ser ateu, ou seja, viver sem um Deus com o qual se sinta apoiado e saber que a sua morte vai ser o fim de tudo.
Um cientista, por sua vez, não sendo necessariamente um ateu, se enfrentar o problema enquanto cientista e homem do conhecimento, fá-lo tal como um ateu.
Ora, com uma pessoa religiosa é exactamente o contrário. Defender a todo o custo a existência de Deus, é muito mais do que uma defesa num plano puramente epistemológico e de debate de ideias. Trata-se de defender o seu modo de vida, toda uma organização e toda a sua necessidade afectiva de acreditar.
No caso específico de um teólogo e, radicalmente, no caso específico de um papa é ainda muito mais do que isso: trata-se de defender a igreja. A igreja que só existe, que só sobrevive, que só mantém o seu poder, com base no pressuposto de que Deus existe.

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