27 dezembro, 2008

DA INSANIDADE

Há quem defenda a mentira. A mentira social, a mentira piedosa, a mentirinha inócua. Enfim, condescendo, mas a minha linha de pensamento não vai muito por esse rumo.
Repare-se: a mentira é uma distorção da realidade. A realidade já é o que é, quanto mais ainda distorcê-la.
Para além disso, a vidinha quotidiana é dura. Por que razão haveremos de, perante uma conversa cretina que nos agarrou na rua, dar uma resposta polidinha em vez de um sincero: "Tu tornaste-te assim parvo, ou isso é genético?" Acreditem, uma resposta destas dá um prazer inenarrável.
Duas excepções: nunca se mente à nossa mãe e ao nosso advogado.
À nossa mãe não vale a pena porque ela descobre sempre e mentir à mãe configura um acto nulo.
A um advogado nunca se mente, contam-se até os pensamentos que precederam a intenção dos nossos actos.
Quando eu matar alguém, sento-me nos magníficos sofás de courtisaine amarelo pálido da minha advogada e digo-lhe: "Minha cara, o tiro foi intencional e a criatura caiu redonda a meus pés."
Depois, presumo, ela alegará insanidade momentânea e, penso eu, na ponderação do sábio meritíssimo substirá uma dúvida razoável.
Para além disso, as muitas testemunhas arroladas jurarão todas, por sua honra, que a minha insanidade é cada vez mais menos momentânea.

1 comentário:

Inês de Sousa disse...

Estimada professora Ivone,
Aguardo, ansiosamente, o dia em que, no papel desse sábio meritíssimo, poderei ilibá-la, embora consciente de que o que procede de si é sempre bem ponderado, e sem qualquer vestígio de insanidade. Mas, há que recorrer aos subterfúgios do código penal. Enfim, insanidade é inocência e «dura lex, sed lex»...
Respeitosamente,
Inês de Sousa