22 dezembro, 2008

DA IMPORTÂNCIA DA GRIPE NA RES DOMESTICA

O Zé Ricardo vive tempos difíceis. Depois da sisífica tarefa de subir à estante com seis Balzac, a edição de Os Miseráveis, em papel bíblico, O Vermelho e o Negro, arrumá-los e chegar à conclusão de que, afinal, aquele não é o melhor sítio, descer e tornar a subir com outra erudita pilha; depois de me colocar o dicionário de grego a duas milhas do alcance do meu braço, depois de aceitar (é um homem generoso) que um recamier do séc. XIX, forrado a linho inglês, enchesse o único espaço livre do escritório; depois de ser constantemente desviado do Isaiah Berlin com comentários sobre cadeirões forrados a toile de Jouy; depois de me ouvir passar, abruptamente, de uma conversa sobre a Medeia para o damasco vermelho que forra um abat-jour novo ou as almofadas de seda D. Maria e as cadeiras Luís XV, limita-se a pedir que me decida a pendurar os quadros: a escola francesa sobre o relógio napoleónico, as serigrafias e as reproduções de Poussin, os espelhos, a cabeça de um querubim.
Alego em minha defesa uma gripe olímpica que me apanhou nas voltas do último sábado.
Aqui, urbi et orbi, juro que lhe farei a vontade tão rápido quanto conseguir.

1 comentário:

jlf disse...

Constou-me, de facto, que no escritório é que estava o busilis...

(Pois é: o remanso do nosso cantinho...)

Vá, Ivone: eu sou testemunha da jura...

jl