07 dezembro, 2008

CRISTO, VÁRON DE DOLORES


Quando percorremos as salas e os corredores de um grande museu, chegamos a um ponto em que o nível de concentração começa necessariamente a baixar. A partir daí passamos por inúmeros quadros sem os ver ou olhando para eles com algum fastio. Muitas vezes injustamente. Quadros que, vistos noutro contexto e com outra disposição, poderiam dar-nos um grande prazer e merecer o nosso interesse.

Esta pintura que aqui trago, Cristo, Váron de Dolores (1641), de Antonio de Pereda, poderia ter sido um deles. Mas ao passar por ele, no Museu do Prado, já cansado, não pude deixar de parar graças ao tronco da árvore. Trata-se de um Cristo, de um Cristo como centenas de outros cristos já vistos anteriormente. Mas há aqui um punctum. O punctum desta imagem está precisamente no tronco da árvore. Ou melhor, na continuidade, na semelhança entre o corpo de Cristo, já fustigado pela violência da tortura, e o tronco da árvore, marcado pela violência do tempo.

Aquele tronco está ali de duas maneiras: por um lado, como se fosse uma parte do corpo de Cristo. Mas, por outro, sendo uma parte, será ali a parte mais importante do seu corpo, pois traduz, ou melhor, concentra toda a miséria existencial da sua situação e do seu destino. Eu olho para aquele tronco e percebo a Paixão de Cristo, pois aquele tronco é Jesus Cristo. Mais até do que Jesus Cristo: é Jesus Cristo mais a sua circunstância.
Eu teria mesmo de parar.

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