23 dezembro, 2008

ANNA HAMMERSHOI


Passo a explicar. Comecemos pela imagem de cima. Trata-se de uma fotografia vulgar, uma fotografia formal de Anna Hammershoi, irmã do pintor Willelm Hammershoi, pintor que descobri este ano e foi uma das minhas grandes descobertas deste ano.

Seguidamente, temos de novo o seu retrato mas desta vez pintado pelo irmão em 1885.
Por fim, voltamos a encontrar Anna Hammershoi mas duplamente. Por um lado, surge fotograficamente, de costas, enquanto toca piano. Mas, à sua frente, na parede, temos o próprio retrato pintado pelo irmão e que já aqui vimos. Não esqueçamos ainda que muitas das figuras pintadas por Hammershoi estão precisamente de costas, como esta






ou esta



Eu acho absolutamente fascinante esta mistura entre a realidade fotográfica e a pintura, muito perto daquilo a que na Teoria da Literatura se dá o nome de metalepse, mais concretamente, quando se juntam numa mesma acção pessoas de níveis narrativos diferentes. Uma das metalepses mais interessantes que eu conheço está nas Viagens da Minha Terra quando Frei Dinis (personagem da novela) revela ao narrador a carta de Carlos a Joaninha.
O retrato na parede que surge na fotografia em que Anna Hammershoi toca piano, sendo o retrato que eu vi este ano no museu, ou que podemos ver na net ou num livro, adquire ali um sentido completamente diferente daquele que tem nos outros contextos. Estando na sala de Anna Hammershoi e perante a própria figura viva e carnal de Anna Hammershoi, parece que ganha vida, contrariamente ao retrato frio e cru do museu. Aliás, isto permitirá até uma reflexão sobre o percurso de um quadro entre o ateliê do pintor ou o seu contexto inicial e a sua posterior institucionalização e mercantilização. Uma reflexão interessante.




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