23 dezembro, 2008

A ALMA DOS FÚTEIS

Em prol do esbatimento dos meus defeitos que, como bem sabem os que comigo privam são infindáveis, já deixei de porfiar. Ser intolerante, snob, irascível, respondona, cruel, impaciente, e outros que tais, foi coisa a que já me habituei a que já se habituou quem tem a desdita de partilhar os dias comigo. Nunca esquecendo, esses defeitos fazem parte da minha natureza a tal natureza contra a qual a Agustina diz ser perigoso ir contra.
De todos os referidos, e os propositadamente ocultados, um deles me causa um frisson de remorsos. A futilidade. Não a futilidade que desagua na ostentação, mas a futilidade do toque da seda natural sobre a pele. Dizia Saint-Exupéry que somos da nossa infância como de um país. Talvez o perfume que as minhas tias usavam quando se arranjavam e uns sapatos, de saltos vertiginosos, num bege nacarado, que a minha tinha por volta dos meus cinco anos, me tenham estragado para sempre.
Por que razão vem este arrazoado ao caso? Porque é Natal.

Sim, eu quero a paz no mundo.
Sim eu quero que acabe a miséria, a doença e a desgraça.
Se para que que tudo isso fosse erradicado, eu nunca mais tivesse nada, eu aceitaria de bom grado.E assinava por baixo. Quem me conhece sabe, sabe bem que eu assino sempre por baixo.
Sei, porém, que isso não é possível. Não sou ingénua nem romancista russa.

Aqui segue, pois, a minha carta ao pai Natal. Se ele tiver tempo, depois das outras premências:

O Dicionário de grego da Oxford
Uns sapatos Christian Laboutin em azul escuro (detesto Manolos)
Um colar de pérolas de três voltas com um oriente magnífico
Uma coisinha qualquer da colecção Baiser do Dragon da Cartier
Um relógio Patek Philippe
A melhor máquina fotográfica existente no mercado para o Zé Ricardo
Todas as primeiras edições da Agustina
Todas as primeiras edições do Eça
Uma caneta Parker DuoFold
Um colar Bulgari igual ao que a Renée Russo usa em The Thomas Crown Affair
Uma jóia antiga comprada na Isabel Lopes da Silva
Uma baixela em vermeil
Uns dois gomis de prata antiga
Um Vermeer
Dois Goya
Umas coisitas em porcelana de Sèvres

Enfim, com tempo, eu lembrar-me-ia de mais coisas
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