12 dezembro, 2008

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Simon Vouet, Parnaso ou Apolo e as Musas

”O essencial tornou-se tão mínimo que o fortuito parece não ter limites.” Samuel Beckett

Nos meus velhos tempos de faculdade interessei-me bastante pela esquizofrenia. Não, evidentemente, de um ponto de vista clínico mas de um ponto de vista filosófico. Aproveitei então o facto de ter uma cadeira de Filosofia da Linguagem para fazer um trabalho que tinha por objectivo o seguinte: estabelecer uma ligação entre o discurso poético e o modo como o esquizofrénico desenvolve a sua experiência de si próprio e do mundo.

A ideia, naturalmente, não era mostrar que o poeta é um esquizofrénico ou o esquizofrénico necessariamente um poeta. Era antes a de mostrar que há na linguagem poética a busca de uma sensibilidade interior e a procura de uma experiência do mundo que subvertem por completo a linguagem que herdamos socialmente e que usamos num sentido meramente prático e funcional.

”J’est un autre”, tanto pode dizer o poeta como pode dizer o esquizofrénico. Felizmente, no caso do primeiro, a necessidade de ser ”um outro” é explicada de um modo intencional e não de uma forma patológica, como no caso do segundo.

O que eu estou a querer dizer é que a poesia é um espaço de liberdade, de exploração do mundo e de si próprio através de uma conversão da linguagem. Dar novos sentidos aos sentidos das palavras é muito mais do que um jogo fonético ou sintáctico. Implica reorganizar a nossa percepção do mundo de modo a que as coisas, seja o dourado do mar, uma laranja na árvore, o riso de uma mulher ou uma tolha de linho numa mesa, passem a ter um valor que, na linguagem corrente, jamais poderão ter.

Vários autores do século passado denunciaram a redução da língua ao seu nível mais pobre e puramente mecânico. George Orwell inventou o conceito de ”novilíngua” para criticar o modo como a língua pode ser instrumentalizada num regime totalitário. William Burroughs fala da linguagem como um vírus. O teatro de Samuel Beckett é também uma reflexão sobre os limites da linguagem. Sophia de Melo Breyner Andresen dizia que uma palavra repetida inúmeras vezes se transforma em baba.

É neste sentido que é de louvar a iniciativa de António Mário Lopes dos Santos, ao ter juntado poemas de 22 torrejanos num único livro cujo lançamento será este fim- de-semana. Independentemente da qualidade poética dos seus textos, o livro mostra que há pessoas em Torres Novas com suficiente ousadia para ir mais longe nos territórios da linguagem e que há poesia para além dos nomes que, por esta ou aquela razão, ficam gravados na história da literatura.

Claro que há Sá de Miranda, Camões, Bocage, Pessoa, Florbela, Sophia, Jorge de Sena, Ruy Belo, Herberto Hélder ou Nuno Júdice. Mas o facto de existirem grandes poetas que escreveram grande poesia não anula o valor da experiência poética, o jogo criativo com a linguagem que enriquece todos aqueles que escrevem poesia. A poesia, da mais erudita à mais popular, da mais experimental à mais convencional, é sempre poesia. O poeta é sempre um poeta, seja alguém que escreve com uma depuração estética perfeita, seja alguém que improvisa para cantar à desgarrada.

A poesia não é apenas um jogo de linguagem. É um jogo em que se baralham as palavras para voltar depois a dá-las de novo, desta vez, porém, mais ricas e criativas e menos instrumentalizadas por uma rotina que nos faz esquecer que é a linguagem que está nas pessoas e não as pessoas que estão na linguagem.

In Jornal Torrejano, 12 de Dezembro 2008

5 comentários:

Micha disse...

belissimo post (as usual) engracadamente meu percurso foi parecido mas ao contrario. Trabahando na area da saude mental descobri o Haiku e o resto teu post ilustra com mestria!

jlf disse...

Creio que centraliza, excessivamente, a poesia no verbo e no seu jogo. Creio que é na forma que assenta a sua perspectiva.
Mas poesia é, antes de mais, penso, uma diferente forma de sentir. E tanto assim que há belos poemas feitos em prosa. À diferença que há no sentir terá, naturalmente de corresponder uma diferente FORMA de expressão...

Aliás, a própria Sophia, de quem fala, achava difícil falar de poesia. Mais, Sophia achava, antes, que era IMPOSSÍVEL falar-se de tal forma de expressão... Ela dizia, mesmo, que dum poema só se pode dizer o próprio poema.
Esta aparentemente extravagante forma de dizer já é condicionada por uma diferente forma de sentir...

PS: curiosamente, depois de ter relido o seu texto senti que, afinal, talvez não ande tão longe, assim, o seu conceito de poesia, do meu...

Micha disse...

concordo, os conceitos estao proximos a trajetoria e que foi inversa ou seja: vc chega a esquizofrenia via poesia e eu chego a poesia via esquizofrenia. Boa semana e boa sorte com teu novo espaco!

José Ricardo Costa disse...

Cara Micha, ainda a este respeito, não posso esconder a influência que tiveram em mim psiquiatras como RD Laing ou David Cooper. Pena que se tenha deixado de os ler.

Boa semana também e continuação de excelentes fotografias.

JR

Micha disse...

:)