15 novembro, 2008

ROUBAR LIVROS

No meu tempo de estudante, havia, no Campo Grande, uma livraria ( a Universitária) mesmo ao lado da 111, que tinha excelentes livros, quase tudo em francês e espanhol, as línguas oficiais do curso de Filosofia ( o alemão era para os professores). Tinha uma única funcionária: a dona. Uma simpática, elegante e bem educada senhora da idade que tratava os clientes com grande deferência.

A livraria tinha cantos e recantos o que, apenas com uma pessoa a tomar conta, permitia meter facilmente livros no bolso ou numa mala e sair sem pagar. Roubar livros na Universitária era uma tradição. Alguns deles caríssimos. Eu nunca fui capaz. Ainda tentei mas não consegui. Não por não ter podido fazê-lo mas porque a minha consciência moral de filho e neto de comerciantes me impedia de fazê-lo.

Na altura não achava muita graça a essa actividade. Mas hoje mudei de opinião. Numa época em que ninguém lê e em que o livro perdeu toda a sua importância simbólica (tirando, claro, o bibliolixo), roubar um livro é um acto profundamente romântico.

Roubar uma coisa é dar-lhe importância. Ora, alguém que se arrisca a ser apanhado a roubar e passar pela vergonha de ser apanhado a roubar, e tudo isso por causa de um livro, só pode merecer o meu profundo respeito e admiração.

3 comentários:

Micha disse...

absolutamente delicioso!

José Borges disse...

Devo dizer-lhe que este seu texto me aliviou bastante. Obrigado!

APC disse...

Ora então não é o mesmo tipo de sentimento que nos agarra a uma daquelas histórias de paixão absoluta, em que os protagonistas, por necessidade pura de se terem, se arriscam aos mais diversos castigos e de tudo sofrem para o conseguir? Lá está: o valor que as coisas têm para nós vai do que estamos capazes de fazer por elas.
... Esta é uma forma de ver as coisas - e sou eu agora a ver se alivio outros tantos, eheheh :-)))