04 novembro, 2008

NARCISISMO MATINAL

Caravaggio, Narciso

Na entrevista que António Lobo Antunes deu há dias a Mário Crespo, falou da dificuldade que muitas pessoas têm em enfrentar o espelho matinal, com o rosto ainda com restos de sono. E deu o exemplo do pai que, de manhã, tirava os óculos para fazer a barba para não ver nitidamente o rosto, apenas o branco do creme de barbear.

Podemos ser levados a ver um anti-Narciso em todo aquele que recusa ver o seu rosto no espelho matinal. Narciso é precisamente aquele que adora contemplar-se, alheando-se da contemplação de todos os outros rostos.

Mas é exactamente o contrário. Recusar-se a enfrentar o seu próprio rosto continua a ser um acto de supremo narcisismo. Só recusa ver o seu rosto aquele que quer muito ver o seu rosto mas que sabe que não vai encontrar o rosto que desejaria.

8 comentários:

José Trincão Marques disse...

Ou seja, preso por ter espelho e preso por não ter...

Alice N. disse...

Esta reflexão sobre a forma como nos relacionamos com o nosso rosto, lembrou-me outra questão que, não sendo nova, me deixa sempre perplexa: como seria a nossa relação com os outros e connosco se não tivéssemos espelhos nem qualquer possibilidade de vermos reflectida a nossa imagem? Seríamos mais felizes? Menos egoístas? Mais disponíveis para os outros? Mais reflexivos? Enfim, melhores pessoas? Ou viveríamos obcecados e angustiados pela impossibilidade de conhecermos a nossa imagem e, sobretudo, por não sabermos como os outros nos viam? Não sei responder, mas certamente encontraríamos um sentido diferente para a nossa existência (melhor? pior?) e a vida em sociedade também ela seria necessariamente diferente.

Tudo isso é mero exercício de imaginação. Temos espelhos e, narcisistas ou não, não os dispensamos (acho eu). O segredo estará naquele meio onde se encontra a virtude e sabermos aceitar o bom e o mau que o espelho nos devolve. Em todo o caso, penso que quem olha muito para o espelho vê pouco por dentro ou, pelo contrário, não suporta o que vê lá dentro.

Anónimo disse...

Parabéns pelo blogue, que sigo há algum tempo, com interesse. Não tenho por hábito imiscuir-me com comentários, muitas vezes por notória falta de tempo mas este post merece sê-lo, comentado, não tanto pela abordagem do narcisismo, cativante, antes pelo exemplo que a despoleta, os óculos do pai de Lobo Antunes: ele tirá-los-ia não tanto para criar um afastamento do rosto que lhe não agradaria àquela hora matinal, mas, supostamente, sendo míope e, muito provavelmente, presbíope, necessitaria de tirá-los para ver em condições o que estava a fazer, a experiência, minha, assim o prova.
E deste modo se perde, no prosaico barbear do dia-a-dia, um bom exemplo criador de reflexão, talvez em demasia narcísica.
Votos de continuação de um bom blogue.

JB Lemos

jlf disse...

Certo.
Verdade que sim.

jl

José Ricardo Costa disse...

Caro JB Lemos, o António Lobo Antunes deu o exemplo do pai precisamente como o de alguém que, intencionalmente e explicitamente, tirava os óculos porque não gostava de ver o seu rosto pela manhã.

Cara alice n, a sua questão é muito interessante. Eu acho que seria como um mundo com obras mas sem autores. Imagine um mundo com filmes, pinturas, livros, fotografias, edifícios, cujas autorias seriam desconhecidas. Ou seja, o autor andava no mundo mas não andava no mundo como autor.

JR

Alice N. disse...

Caro José Ricardo,

Permita-me que volte ao tema e desculpe se estou a abusar deste espaço. Compreendo o alcance da sua comparação, mas ela suscita-me outras reflexões e algumas reservas.

Concordo que o rosto completa a nossa identidade, porém, o que realmente importa para deixarmos a nossa marca é, precisamente, a obra que deixamos e o nome que lhe fica associado; não tanto o rosto. Reflectindo nas suas palavras num sentido mais estrito, dou comigo a pensar que admiro a obra de várias personalidades (pintores, escultores, arquitectos, Homens que marcaram a História...) cujo rosto não conheço, mas cujo nome muito representa para mim, pela veneração que me suscita a Obra que nos legaram.

Creio que a obra (no sentido lato do termo) não precisa de rosto, mas sobretudo de um nome. Seria de facto triste termos obras cujas autorias fossem desconhecidas (acho triste ver um quadro e apenas encontrar referências como "mestre do Séc...." ou "autor desconhecido"). Já não considero grande lacuna não conhecermos o rosto de quem cria a obra.
Assim, o hipotético desconhecimento do nosso rosto seria sobretudo problemático para nós porque, de alguma forma, seríamos um pouco anónimos de nós próprios e isso, de facto, seria difícil de suportar.

José Ricardo Costa disse...

Cara alice n,

Eu percebo que a comparação possa ser um pouco forçada. Mas fi-la tendo em mente a seguinte ideia.

Ainda que não conhecêssmos o nosso rosto, teríamos consciência de nós. Do que fazemos, do que sentimos, do que pensamos.

No entanto, seria uma consciência de mim em que haveria uma distância entre eu e mim próprio.

Sei que sou eu mas um eu distante, na medida em que o rosto configura a minha identidade. Um pouco como alguém que apenas conhecemos virtualmente.
Ora, com a existência de obras sem autor acontece o mesmo. Mesmo que queiramos evitar isso, ver uma obra sem conhecer o seu autor, é como se essa obra perdesse o rosto que está na sua origem. O nome, neste sentido, tem o efeito do rosto numa pessoa. Apenas isso.

JR

Alice N. disse...

Agradeço a atenção que reservou ao que aqui argumentei. Fiquei plenamente esclarecida sobre os termos da sua comparação e revejo-me nela.