17 novembro, 2008

A LUZ DA IGNORÂNCIA

Gauguin, O Que Há de Novo?

Há uma anedota muito comum sobre um médico missionário num local remoto que assiste, em terror, às pessoas a darem água não tratada de um poço aos seus bebés. As crianças geralmente ficam com diarreia, e muitas delas morrem. O missionário exclama que, apesar de a água parecer limpa, existem pequenas e invisíveis criaturas nela, que fazem com que as crianças fiquem doentes. Felizmente, diz o missionário, se a água for fervida, estas bactérias serão mortas. Um mês depois está de volta e ainda dão aos bebés a água suja. Então o missionário tem outra ideia. Observem, deixem que lhes mostre algo. Ele ferve alguma água. Vêem, diz, há espíritos na água, e quando a pomos ao lume eles fogem: estas bolhas que vêem são os espíritos a fugir, os espíritos que fazem com que as vossas crianças adoeçam. Agora ferver a água já faz sentido. Assim os bebés deixam de morrer. Na crença, tal como em tudo o resto, cada um de nós dever partir do ponto em que se encontra.

Esta deliciosa história é contada por Kwame Anthony Appiah, professor de Filosofia, criado no Gana e educado em Cambridge, no seu livro Cosmopolitismo - Ética num Mundo de Estranhos.

A história é não apenas deliciosa. Dá também que pensar. Permite contrariar aquela ideia, que vem sobretudo desde a Revolução Francesa e do Iluminismo, segundo a qual a ignorância se combate com a luz da razão e da verdade. O que esta história nos mostra é que a ignorância se pode combater com a ignorância, que existem diferentes níveis de ignorância, que existem ignorâncias mais úteis do que outras.

Admito que não será muito edificante para um ocidental, habituado à superioridade da verdade científica e racional. Mas permite salvar a vida de muitas crianças. Ainda que se trate de futuros adultos ignorantes.

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