16 novembro, 2008

A GALINHA CEGA

Goya, A Galinha Cega

Regresso a Goya e às suas figurinhas pelas quais sinto um fascínio quase benjaminiano. Desta vez, a Galinha Cega. Eu olho para o quadro e a associação com o El Pelele surge espontaneamente.

O centro de gravidade está claramente na mulher do lado direito. Tentemos imaginar o mesmo cenário mas com a mulher do lado direito sem a enorme curvatura do seu corpo. Teríamos um quadro completamente diferente. O centro de gravidade passaria a ser o centro efectivo do círculo, o homem de olhos vendados, a partir do qual emanariam todas as outras figuras. O homem que se baixa, apesar da abrupta inclinação que lhe confere uma posição dinâmica no conjunto, pela sua ruptura vertical relativamente às outras figuras perderia sempre o seu estatuto de centro .

Mas apesar do fortíssimo efeito cinético da mulher inclinada, as restantes figuras não são sugadas para o lado direito, como se fossem descentradas e passassem a ser apenas um contraponto ao dinamismo da mulher. Tal como no El Pelele, há um fabuloso efeito de conjunto no qual existe um centro, mas um centro que subsiste à custa dos outros movimentos, ou até mesmo do congelamento total da mulher do lado esquerdo que, surge aqui como se estivesse a posar para o pintor no seu atelier, um processo idêntico ao que se pode ver no Retrato da Família do Duque de Osuna no qual a inclinação do duque em contraste com o congelamento da mulher e crianças dá vida ao retrato.

Eis, pois, o equilíbrio e graciosidade deste conjunto, conseguido graças a um dinamismo interno marcado por um equilíbrio de forças e de movimentos. Não se trata de um equilíbrio grego e geométrico mas um equilíbrio natural e espontâneo. A vida tal como é. Feita de movimentos livres e abertos e não de uma rigidez geométrica como aquela de que fala Platão, no Górgias, quando projecta uma sociedade perfeita e ideal.

1 comentário:

Alice N. disse...

Uma análise magistral! À altura do quadro que descreve.
Também sinto um enorme fascínio pela obra de Goya que conheci "ao vivo" já lá vão uns bons anos, na minha primeira visita ao Museu do Prado. Foi uma revelação, como quem de repente descobre o mundo! (E há revelações que nos fazem doer os olhos...)
Foi nessa altura que percebi que não se conhece realmente uma obra quando apenas se toma contacto com ela através dos livros (mas é melhor do que nada, apesar de tudo), pois, antes de ver directamente os seus quadros, não me interessava particulamente pela obra de Goya (agora quase me escandalizo comigo própria quando digo isso). Génios como Goya, Velázquez e El Greco (só para citar alguns dos grandes de Espanha) fizeram-me descobrir e apreciar géneros pictóricos que durante muito tempo ignorei e ajudaram-me a compreender melhor o trabalho de mestres da pintura moderna que admiro particularmente, tais como Manet ou Picasso, entre muitos outros.