26 outubro, 2008

VIVER


Há quem defenda que mais vale morrer de pé do que viver de joelhos. Eu prefiro aquela passagem da Odisseia na qual se diz que é preferível ser escravo de um escravo aqui na terra do que ser rei no mundo das sombras.

Imaginemos que não tinha havido resistência francesa, inglesa, russa e americana, e Hitler teria conseguido fazer da Europa uma grande Alemanha. Ou seja, não não teria chegado a existir a 2ª Guerra Mundial. Como seria, hoje, a Europa? Eu sei que pareço estar a brincar ao jogo das suposições. E estou mesmo a brincar, até porque é uma das minhas brincadeiras preferidas.

A Europa, hoje, não seria, certamente, uma grande Alemanha. Não seria o que é hoje, mas também não seria o que Hitler pensaria que iria ser. Este, assim como todos os ideólogos do nazismo teriam morrido e, com os anos, a História encarregar-se-ia de repor a normalidade.

Com a guerra, o que aconteceu? Morreram milhões e milhões de jovens soldados e civis. A Europa destruída pelas bombas em cenários de verdadeiro horror apocalíptico. Para que morreram esses milhões de pessoas? Por causa da ideia de um mundo melhor. Mas um mundo melhor sem essas pessoas? O que teriam elas respondido se lhes tivessem perguntado se antes preferiam morrer, assim como os seus filhos, ou viver numa Europa dominada pela Alemanha? E o que teria sido viver numa Europa dominada pela Alemanha? A vida não continuaria numa Europa dominada pela Alemanha? As pessoas não continuariam a trabalhar, a amar, a passear, a festejar, a aprender, enfim, a viver os gestos normais de uma vida normal?

Se me perguntassem: para não vivermos sob o domínio alemão, defendes uma guerra na qual tu, os teus filhos e as pessoas de quem mais gostas irão morrer, assim como milhões de outras e os seus filhos? Eu responderia que não. E responderia que não porque, por um lado, queria que todos nós continuássemos a viver e que os nossos filhos tivessem o direito de também terem os seus filhos. Por outro, porque a História, pela ordem natural das coisas, se encarregaria de resolver o assunto.

Veja-se o que aconteceu em Portugal com o fascismo. Morreram pessoas que lutaram contra o regime. Admiro e respeito essas pessoas. Mas nada, mas mesmo nada, na sua luta, contribuiu para acabar com o fascismo. O fascismo acabou quando um grupo de militares, descontentes com a guerra, decidiu acabar com o fascismo. E se esses militares, em 1974, não tivessem acabado com o fascismo? Portugal teria continuado fascista nos anos 80? E nos anos 90? Seria ainda hoje um regime fascista? Nem me dou ao trabalho de responder.

P.S. O que eu disse acerca da resistência ao nazismo só é válido se excluirmos a questão judaica, a solução final. Apenas isso já teria justificado uma intervenção contra a Alemanha.

7 comentários:

José Trincão Marques disse...

http://fotos.sapo.pt/IVvzz0LVy9kldg2cRZst

José Ricardo Costa disse...

Zé, já vi o link. So what?

JR

José Trincão Marques disse...

Admito que seja preferível ser escravo de um escravo aqui na terra do que ser rei no mundo das sombras. Até porque enquanto há vida, há esperança de vir a deixar de ser escravo (ou chegar a rei). Nunca se sabe.
Porém, entre morrer como escravo ou como rei, tanto faz.
É por isso que os escravos e os reis fazem guerras e golpes militares. Para não morrerem. Ninguém faz uma guerra para morrer, mas para viver (ainda que à custa dos outros). Até o Hitler...

José Ricardo Costa disse...

A guerra existe para se morrer. Ninguém entra numa guerra para viver. A não ser que se morra se não se fizer a guerra.

Por exemplo, aceito a guerra no Afeganistão, pois era o ponto de partida de ataques como o do 11 de Setembro. Ou seja, os americanos foram para o Afeganistão para não continuarem a ser mortos pelos que lá estavam. Certíssimo.

Aceito a guerra defensiva em situação de ataque iminente. Eu mataria quem estivesse a matar as pessoas de quem mais gosto.
Mas há uma contradição na ideia de se morrer, não para outros não morrerem, para apenas para viverem melhor. Os franceses que morreram pelos outros franceses fizeram mal. Morreram. E os outros pelos quais morreram não viveram assim tão melhor pelo facto de se ter conseguido aquilo pelo qual os outros morreram. Estou a ver a questão a partir de um ponto de vista utilitarista o qual, neste caso,me parece o mais sensato.
JR

José Trincão Marques disse...

O teu post coloca várias questões interessantes.
1- O que farias no lugar de Gil Pais? Eu sei que é uma lenda antiga e que as circunstâncias concretas são imprecisas, o que dificulta a resposta. Não sabemos, por exemplo, qual o teor das negociações realizadas entre os dois exércitos. Mas é curioso como uma lenda com mais de seiscentos anos, chega aos dias de hoje apresentando Gil Pais como um herói, ao deixar sacrificar a vida do filho pela defesa da nossa cidade. Provavelmente até foi simplesmente um utilitarista, ao sacrificar «só» aquela vida, defendendo várias outras que tinha à sua guarda (e até a sua). Mas o que ficou na memória popular foi o seu patriotismo.
2- Seriam hoje os valores ocidentais os mesmos, caso a Alemanha Nazi tivesse vencido a guerra? Provavelmente nuns casos sim, noutros nem por isso. A ideologia dominante não é a dos vencedores? Não teria havido um julgamento de Nuremberga com inversão de papéis dos intervenientes e com outras normas jurídicas diferentes aplicadas no julgamento?
3- Existe um caminho determinista para a História? Ou o caminho faz-se caminhando e guerreando (quando é preciso)?
4- Existem guerras justas e guerras injustas, em função de determinados valores e interesses (normalmente económicos)?
5- Nem sempre a guerra existe para morrer ou matar. O objectivo final da guerra é neutralizar ou dominar o inimigo. Não existem casos de rendição na guerra sem derramamento de sangue? Como escreveu Sun Tzu, General chinês do Séc. V a.C., a excelência da guerra não é vencer o inimigo sem combate?
6- Para terminar, penso (como a maioria das pessoas) que a guerra é um mal a evitar a todo o custo, mas por vezes inevitável (aqui já não sei se como a maioria das pessoas). Em todo o caso, em tempo de guerra a opinião individual conta pouco. Quem manda são os Estados. Os soldados são meros peões de xadrez, que sentem medo, vomitam e tremem em combate. Também no campo de batalha se aplica o princípio utilitarista levado às últimas consequências: salvar a pele. Por outras palavras, sobreviver.
http://www.youtube.com/watch?v=9VGqhcBKw-w&feature=related

José Ricardo Costa disse...

Ora bem, quanto Gil Paes,depende. Se eu soubesse que a invasão do castelo seria pacífica, e ainda que ficássemos sob o jugo castelhano, eu entregaria o castelo. Se eu soubesse que os castelhanos iriam atacar e só não o fizessem se entregasse o filho, aí, eu sacrificria o filho pois seria preferível morrer uma pessoa do que morrerem muitas. Ok, talvez depois me suicidasse a seguir, uma morte muito japonesa.

Vejamos agora o seguinte. Se um tirano entrasse em minha casa, se instalasse lá e, a partir daí, controlasse toda a minha vida, o que como, o que visto, os horários para comer e dormir, os filmes que deveria ver, quem poderia ou não receber em casa, etc., etc, etc, eu iria reagir. Era a minha vida, enquant indivíduo, que estaria a ser posta em causa.
Jamais, no entanto, daria a minha vida enquanto português. Seja português, espanhol ou alemão, eu faria o que continuaria a fazer enquanto indivíduo. Mesmo que as minhas liberdades fossem limitadas através, por exemplo, da censura, se eu morresse a censura seria então total. Entre, vivo, só poder ver alguns filmes, e morto, não ver filme nenhum, prefiro certamente a primeira alternativa.

JR

jlf disse...

Aqui está uma amostra do exemplo acabado do, talvez, modelo ideal de blogue: lugar de reflexão e espaço de debate. Por oposição, naturalmente, a, apenas, ou sobretudo, lugar de reflexão.


Com os ponteiros parados, tudo bem: o tempo sobra para nos podermos explanar (autores e comentadores) sobre cada postagem.
Mas “num” ponteiros parados (não, aqui, por antonomásia, mas por generalização) acredito (e tenho para mim) que será difícil alimentar e manter aquelas duas vertentes em duradoura e saudável harmonia.

Postar-comentar-postar-comentar “ad infinitum”... Isto, correndo a todas as “capelas” que reclamem a nossa presença?
Bah!!! É tremendamente complicado.
Na nossa finitude, tendo de dispersar a atenção por um mundo cada vez mais cheio de apelos, será difícil conciliar interesse, vontade, disponibilidade e acção.

Depois, sem entrar no caricatural exagero, os eventuais visitantes que pretendessem entrar na discussão, torná-lo-iam, provavelmente, um tratado sobre poucos temas, “autorado” por vários colaboradores...


De qualquer modo (e ando na blogosfera já há algum tempo, tanto activa como passivamente) mantenho, para mim, a seguinte opinião: a superior qualidade de um blogue creio dever ser avaliada não só pela sua autoria como pela respectiva “comentoria”.

Aliás, e pensando bem, eu nem deveria atrever-me a comentar num tal blogue que nem este.
O pior é que não resisto à ousadia!

jl