15 outubro, 2008

ULISSES E NAUSÍCAA

Não tinha sido fábula a saudade
de estar ao pé de mim sem estar comigo:
vejo-te agora em água, areia, carne,
e és o culto no sonho pressentido!

Cheiro de rocha a que não chega o mar,
por mais que o mar invente marés vivas…
Reconheço-te, ó palma tão sem par:
és a graça da terra ao céu erguida.

Pisas, ao caminhar, o próprio vento,
que se embuçou no manto de uma duna…
Desfazes sob os pés os grãos do tempo,

por do Tempo não teres noção nenhuma…
De que me serve ter vencido sempre,
se aqui me vence a tua juventude?


David Mourão-FerreiraObra Poética (Lisboa, 1996)

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