15 outubro, 2008

MÉTIS

Um belo poema de Jorge Carreira Maia, sobre um quadro William McGregor Paxton, fez-me logo reencontrar Ulisses em todo o seu esplendor, Ulisses náufrago, Ulisses cortês, Ulisses ardiloso.
Quando Ulisses náufrago, adormecido na praia da ilha dos Feaces, nu, esfomeado e desgrenhado, é acordado pelo barulho das escravas que acompanham Nausícaa, tem a mais astuciosa das reacções.
Porque muito viu e muito sabe, reconhece nela a princesa, e diz-lhe: (desculpa, Jorge, que estou a traduzir de cor)
- És tu deusa ou mortal? Se és mortal, são três vezes felizes o teu pai e a tua mãe, são três vezes felizes os teus irmãos.
-Estrangeiro, tu não pareces homem de baixo nascimento ou de pouco saber ...
-Eu vi uma vez, em Delos, uma beleza assim: um rebento jovem de palmeira que se erguia da terra aos céus. Seguiam-me mais de mil homens pelo caminho que havia de ser o da minha perdição.
Está lá tudo: a cortesia e a subtil insinuação de que não será por certo homem de baixo nascimento, já que houve um momento em que mais de mil homens o seguiam. Encantador e astucioso.
J.P. Vernant explica isto, infinitamente melhor do que eu, em Les ruses de l'inteligence - La Métis des grecs.

2 comentários:

disse...

Estas palavras disse o divino Ulisses, condutor de homens!

Ivone Mendes disse...

Bem-vindo, meu velho, tu que és facundo como o divino Ulisses que falava à frente da assembleia dos homens e todos os escutavam em silêncio.