04 outubro, 2008

INCOMPREENSÕES

Há pouco, na rua, não consegui desviar-me da amiga de uma amiga minha. Não fui suficientemente rápida e logo pressenti que não me escaparia a meia-hora de conversa. Foi mais. De banalidade em banalidade, passou ao fulcro dos seus problemas: a filha, uma jovem de treze anos, está perdidamente apaixonada por um rapaz que não corresponde ao afecto da jovem. Parece que a mocinha não come, não dorme, só chora.
Digo-lhe o que o senso comum manda que se diga em ocasiões destas. Mas ela não desiste. Começo a ficar vagamente irritada com a exposição despudorada dos sentimentos de uma garota que vejo todos os dias na escola.
Para agravar a coisa, do outro lado da rua, a montra de uma sapataria convoca, imperativa, o meu olhar. Mas ela não desiste. E conta tudo o que a menina diz e pensa e sente. Do outro lado, os sapatos também me dizem coisas e bem mais apelativas. De vez em quando, o tom de voz sobe a chamar-me ao epicentro da conversa.
Percebo, por fim, que, para a mãe, o mais grave é a total indiferença do amado. O rapaz sabe das lágrimas, o amor desmedido já lhe foi comunicado, sabe do sofrimento. E é-lhe completamente indiferente.
-Achas normal isto? Achas normal?- grita ela.
Tento consolá-la e cito Camilo : "Ninguém sente em si o peso do amor que inspira e não comparte."
Olha-me furiosa, como se olhasse o amado a rejeitar o amor da filha:
- Tu dás sempre respostas dessas?
Tranquilizo-a. Digo que não, que não dou sempre respostas daquelas. Só aos sábados à tarde.
Vira-me as costas e desaparece. Pressinto que vai deixar de me falar.
Isto é um mundo terrível. Então uma pobre mortal não pode citar Camilo num sábado à tarde?

2 comentários:

Xantipa disse...

Excelente! Excelente resposta!
:)

Anónimo disse...

Essa, do Camilo, é de grandíssima vénia e de se lhe tirar o chapéu!
Mas quem está, assim, tão perturbada (mais a mãe ou mais a filha?) nem entende a mensagem... E o moço nem dá por tal!

jl