20 outubro, 2008

FÚRIAS

Encontrei sempre, encontrámos todos na poesia de Sophia de Mello Breyner e Andresen a celebração de um tempo inteiro, mítico, tempo justo, harmónico e ordenado. Por isso, são raros os textos em que a autora faz concessões poéticas a um quotidiano disfórico.
Que este poema retome uma função primordial e atávica da poesia, que sendo magia, possa exorcizar deste nosso tempo dividido a banalidade e a vulgaridade.

Fúrias
Escorraçadas do pecado e do sagrado
Habitam agora a mais íntima humildade
Do quotidiano. São
Torneira que se estraga atraso de autocarro
Sopa que transborda na panela
Caneta que se perde aspirador que não aspira
Táxi que não há recibo extraviado
Empurrão cotovelada espera
Burocrático desvario

Sem clamor sem olhar
Sem cabelos eriçados de serpentes
Com as meticulosas mãos do dia-a-dia
Elas nos desfiam

Elas são a peculiar maravilha do mundo moderno
Sem rosto e sem máscara
Sem nome e sem sopro
São as hidras de mil cabeças da eficácia que se avaria

Já não perseguem sacrílegos e parricidas
Preferem vítimas inocentes
Que de forma nenhuma as provocaram
Por elas o dia perde seus longos planos lisos
Seu sumo de fruta
Sua fragrância de flor
Seu marinho alvoroço
E o tempo é transformado
Em tarefa e pressa
A contratempo

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