20 outubro, 2008

DIFAMAÇÃO

A partir de hoje, Hitchcock tem uma morena: eu.
Passo aos factos: durante quase trinta anos, usei o mesmo perfume. Opium deYSL. Era a minha assinatura, mas tal persistência cria um problema. O nosso olfacto habitua-se de tal modo àquele aroma que, com o tempo, vamos exagerando a dose. Chega-se a um ponto em que já não o sentimos mas todos à nossa volta o sentem. Nada de mais deselegante do que deixar atrás de si um rasto de perfume. Urgia solucionar o problema e, hoje durante a hora de almoço, resolvi esta imperiosa questão.
Ora bem, isto não é decisão que se tome de ânimo leve. A minha pele não aceita qualquer perfume. Tem de ser um oriental, de preferência um amadeirado. Fiz várias visitas à perfumaria, como mandam as regras. Experimentei um de cada vez, um em cada dia. Andei indecisa e insatisfeita até ver, numa prateleira, Notorious, o novo Ralph Lauren. Enfim, confesso, não fora o nome e eu não o olharia sequer. É um oriental, apesar de umas notas de fundo florais. E gostei. E estou a gostar. E acho que os tweeds, dentro do meu armário, também vão gostar.
Agora resta saber como reage à minha pele, às minha impaciências, aos meus casacos, às minhas tristezas, aos meus saltos, aos meus livros, ao meu trabalho, ao frio, às viagens, ao calor, às minhas saias justas, às minhas calças de ganga, ao meu colar de pérolas. Vamos ver como reage o Universo à reacção do Notorious em mim.
Mas, obviamente, muito mais importante do que a reacção do Universo será a reacção do Zé Ricardo.

2 comentários:

José Trincão Marques disse...

«Mas o olhar de Carlos prendia-se sobretudo a um sofá onde ficara estendido, com as mangas abertas, à maneira de dois braços que se oferecem, o casaco branco de veludo lavrado de Génova com que ele a vira, a primeira vez, apear-se à porta do hotel. O forro, de cetim branco, não tinha o menor alcochoado, tão perfeito devia ser o corpo que vestia: e assim, deitado sobre o sofá, nessa atitude viva , num desabotoado de seminudez, adiantando em vago relevo o cheio de dois seios, com os braços alargando-se, dando-se todos, aquele estofo parecia exalar um calor humano, e punha ali a forma de um corpo amoroso, desfalecendo num silêncio de alcova. Carlos sentiu bater o coração. Um perfume indefinido e forte de jasmim, de marechala, de tanglewood elevava-se de todas aquelas coisas íntimas, passava-lhe pela face como um bafo suave de carícia...»
Eça de Queirós, Os Maias.

Anónimo disse...

Finalmente!...
(Não se assuste, Ivone. Só quis dizer que ia sempre esperando pelo mais importante e decisivo argumento, pela dúvida que suspeitava de mais atroz... e ela lá veio finalmente. No remate.)

Bom, perante tamanha e tão púbica declaração...
Ah! Mas eu sei que o ZR, atento como é, saberá dar-lhe adequada, oportuna e merecida resposta.


Depois...
(Não, não é depois da resposta dele... É na sequência do que vinha dizendo)
Depois... como de uma coisa pouca, um quase nada, se constrói uma interessante prosa que - hélas! - consuma a mais bela rendição aos disparos de Cupido.

Não é preciso coragem - como alguns imaginam. Basta amor!

jl