27 outubro, 2008

APONTAMENTOS

Quando arrumo papéis, encontro sempre notas, apontamentos, reflexões inacabadas.
"Depois do verso 205, o Coro recorda o discurso de Agamémnon, nos seus níveis reveladores da verdade heróica, ciente de que todos eles são faces concomitantes de uma única realidade: a sua dimensão ontológica de rei comporta a assunção do mal que advém da decisão tomada.
Agamémnonn não pode deixar de confiar no adivinho e na participação nos deuses que está por detrás dessa mântica que identifica os sinais, não pode ignorar que os sinais representam a tomada de Tróia e são o fundamento e a reafirmação da sua função de rei. Por outro lado, como pode matar a filha, que é a beleza do palácio e participação nos deuses? Nessa solidão interrogativa, o rei assume a necessidade, do ponto de vista humano, imolando Ifigénia pelos ventos benévolos do porto de Áulide.
Porém os sacrifícios a deuses olímpicos são jubilosas manifestações diurnas, com banquete de partilha onde, em comum, se dividem os restos do sacrifício. O sacrifício de Ifigénia não tem banquete nem partilha e, nesse ponto, Agamémnon subverte toda a lógica do culto religioso, actuando de acordo com a sua verdade heróica mas deixando todo um rasto de consequências a haver.
No verso 218, o coro vai dizer que o rei vestiu o jugo da necessidade : humana perspectiva dentre dos limites da verdade humana que vê juntarem-se em Agamémnon todos os traços de uma difícil forma de ser pio, porque cultor de um divino que tem desígnios penosos: Agamémnon honra os seus pactos bélicos participando em Zeus Xénios, marchando contra Tróia e, ao participar em Zeus, transcende a sua própria angústia e dimensão humana, transcendência que assinala o herói por entre os demais."
Tem a data de 2001 e, está visto que tenho de voltar a este assunto. Quando tiver tempo.

Sem comentários: