30 setembro, 2008

MACHADO DE ASSIS


Comemoram-se os cem anos da morte de Machado de Assis, escritor brasileiro nascido em 1839. Dele, li apenas um livro: D. Casmurro.

Há, na obra, várias coisas que gostaria aqui de salientar. Por exemplo, uma finíssima ironia:

" José Dias adorava os superlativos. Era um modo de dar feição monumental às ideias; não as havendo, servia para prolongar as frases".

"Nada há mais feio que dar pernas longuíssimas a ideias brevíssimas".

"Creio haver lido em Tácito que as éguas iberas concebiam pelo vento; se não foi nele, foi noutro autor antigo, que entendeu guardar essa crendice nos seus livros. Neste particular, a minha imaginação era uma grande égua ibera; a menor brisa lhe dava um potro, que saía logo cavalo de Alexandre; mas deixemos metáforas atrevidas e impróprias dos meus quinze anos".

Há também uma análise psicológica que, sem arriscar grandes exageros, me lembra o Nietzsche de Humano, Demasiado Humano:

" Data daí a opinião que tenho do canapé. Dois homens sentados nele podem debater o destino de um império, e duas mulheres a graça de um vestido; mas um homem e uma mulher só por aberração das leis naturais dirão outra coisa que não seja de si mesmos".

Machado de Assis é ainda mestre na sátira social:

"- Padre é bom, não há dúvida; melhor que padre só cónego, por causa das meias roxas. O roxo é cor muito bonita. Pensando bem é melhor cónego.
- Mas não se pode ser cónego sem ser primeiramente padre - disse-lhe eu mordendo os beiços.
- Bem, comece pelas meias pretas, depois virão as roxas
".

" Mas os anos levaram-lhe mais do ardor político e sexual, e a gordura acabou com o resto das ideias públicas e específicas".

Um escritor que usa a língua portuguesa com enorme elegância figurativa:

"Catei os próprios vermes dos livros, para que me dissessem o que havia nos textos roídos por eles.
- Meu senhor - respondeu-me um longo verme gordo -, nós não sabemos absolutamente nada dos textos que roemos, nem escolhemos o que roemos, nem amamos ou detestamos o que roemos; nós roemos
".

"Conhecia as regras do escrever, sem suspeitar as do amor; tinha orgias de latim e era virgem das mulheres."

" Levantou-se com o passo vagaroso do costume, não aquele vagar arrastado dos preguiçosos, mas um vagar calculado e deduzido, um silogismo completo, a premissa antes da consequência, a consequência antes da conclusão. Um dever amaríssimo."

" Verdadeiramente foi o princípio da minha vida; tudo o que sucedera antes foi como o pintar e vestir das pessoas que tinham de entrar em cena, o acender das luzes, o preparo das rabecas, a sinfonia...Agora é que eu ia começar a minha ópera".

" Imagina um relógio que só tivesse pêndulo, sem mostrador, de maneira que não se vissem as horas escritas. O pêndulo iria de um lado para outro, mas nenhum sinal externo mostraria a marcha do tempo. Tal foi aquela a semana da Tijuca".

Finalmente, para além da natural graciosidade e coloquialidade da sua escrita, que lembra passagens do Garrett das Viagens, uma visão arejada e bem disposta da vida e do mundo:

" Quinze anos, não havendo vocação, pediam antes o seminário do mundo que o de São José".

" Todos os meus nervos me disseram que homens não são padres. O sangue era da mesma opinião".

"Tudo o que vejo lá fora respira vida, a cabra que rumina ao pé de uma carroça, a galinha que marisca no chão da rua, o trem da Estrada Central que bufa, assobia, fumega e passa, a palmeira que investe para o céu, e finalmente aquela torre da igreja, apesar de não ter mais músculos nem folhagem."

Um autor injustamente pouco conhecido.

1 comentário:

Anónimo disse...

Se fosse apenas um...
Mas tantos e tão magníficos fragmentos não podem deixar de apontar para um escritor de primeira água.

Certíssimo: "um autor injustamente pouco conhecido".

(Só li "Memorial de Aires" - reflexões em jeito de autobiografia, se bem me lembro - que integrava a colecção "Livros (de bolso) RTP", dos anos 60.)

jl