28 setembro, 2008

JOÃO ALFARO, O ESPAÇO, O TEMPO E AS PERSONAGENS



De entre as coisas boas que tenho na vida, uma delas é, sem dúvida, privar diariamente com pessoas de muita qualidade. Encheria as estantes deste blogue se falasse de todas. Hoje, porém, achei que era dia de falar do João.

João Alfaro é professor na minha escola e um excelente pintor. Basta ir ao link anterior e ver algumas das obras dele. Obras que já estiveram em muitas galerias e estão nas paredes de muitas casas particulares.

João Alfaro gosta de pintar retratos , mas eu prefiro-lhe as cenas de interior. Quando vi o primeiro quadro dele pensei em Hopper, mas há muito mais do que Hopper naqueles quadros. Nunca há uma radicalização do espaço, nunca é completamente interior nem completamente exterior. O pintor coloca-nos dentro do quadro e faz-nos ver o que as personagens veriam se se virassem para a janela. Coloca-nos na rua e nós vemos os que as personagens veriam se olhassem, através da janela, para dentro de casa. É uma pintura de memórias, de memórias de cores, de memórias de momentos, de memórias de pessoas. Sempre as pessoas.

Vejo, no entanto, que uma camada de angústia vai adormecendo sobre aqueles quadros. O tempo tornou-se o pior inimigo deste pintor. As burocracias inomináveis a que a Escola obriga os professores, rouba a todos o que a cada um faz falta. Ao João, rouba-lhe a luz. Ainda há dias me confessava que, quando chega ao ateliê, já não tem luz para pintar. Eu, a quem costumam gabar a resposta pronta, não soube o que lhe dizer.

2 comentários:

Xantipa disse...

Antes de começar a ler o seu post, pensei em Hopper, de quem tanto gosto. Vou seguir o link.

Ivone Mendes disse...

Cara Adriana, se seguiu o link para a página do João Alfaro, é pena que ela esteja tão desactualizada. Algumas das melhores obras dele não estão ali. Eu conheço-lhe uns "hopperianos" fabulosos. E não só. Depois de uma viagem que ele fez a Itália, há uns anos, pintou uma série muito interessante. A temática permaneceu, mas os quadros são uma explosão de tons de ocre, vermelhos venezianos, terra de siena. E as personagens ficaram todas com um inclinar de cabeça tão renascentista. Muito interessante.

Ivone