27 setembro, 2008

GOYA

Um dia, numa entrevista, contava Manuel de Brito, galerista e coleccionador de arte, dono da 111, que, em tempos, não gostava de Munch. E que alguns amigos, inconformados, lhe diziam que ele teria de ir a Oslo para mudar de ideias. Foi. Disse então que, depois dessa ida, mudou radicalmente a sua opinião acerca do pintor norueguês.
Na altura, quando ouvi isto, pensei que havia nessa história algum pedantismo. Aquela ideia de ir ali a Oslo só para ver uns quadritos, cheirou-me a exibicionismo pequeno-burguês, tão típico dos países pobres como é o caso de Portugal.


Anos depois, entendi perfeitamente o que ele quis dizer. Mais concretamente, no Museu do Prado, ao descobrir a pintura de Goya. A partir desse dia a minha visão do pintor foi também profundamente alterada, assim como aquela ideia de que não haveria grande diferença entre ver um quadro num livro ou na net, ou no própio museu.


Ou melhor, eu já gostava de Goya, gostava da série negra e dos caprichos. Quem não gosta! Mas aquela pintura aparentemente mais convencional, os retratos, cenas realistas da vida doméstica ou da sociedade espanhola, passava-me completamente ao lado.


No Prado, finalmente, deixou de passar ao lado e apanhou-me completamente de frente. Aparentemente realistas, são pinturas que inventam um mundo, pinturas que, sob uma certa pele fotográfica, escondem uma subjectividade resultante da criatividade do pintor que vê o mundo como ele próprio o criou.


Veja-se, acima, o retrato dos duques de Osuna e de seus filhos, quadro de 1788. Aparentemente, trata-se de um convencional e burguês retrato de família. Mas não é. Há aqui uma graciosidade, uma harmonia e inocência quase infantil, eu diria mesmo, quase feérica. Claro que ajuda saber que o pintor era amigo do duque de Osuna. Mas nem seria preciso saber. Quem pintou esta família desta maneira teria que forçosamente de gostar muito dos retratados.

Para mim, neste quadro, mais até do que a cor e os rostos pueris e inocentes de todos eles, o que mais gosto é a ligeira e subtil inclinação do corpo do duque. Longe das hirtas e hieráticas poses clássicas. O duque não está inclinado por estar necessariamente inclinado durante a realização deste trabalho. Aliás, nem poderia estar. Está inclinado, para se poder realçar a sua humanidade e carácter moral. E nós gostamos mais dele por estar inclinado.

A rigidez fica para os deuses ou para aqueles que, pelos cargos importantes, o dinheiro ou a fama, se acham perto dos deuses e que vivem ensimesmados no seu próprio mundo frio e distante.

Pelo contrário, quem desdenharia tomar um chá com os duques de Osuna e fazer umas cabriolices com aquela pequenada?

2 comentários:

josé trincão marques disse...

«No retrato, nomeadamente dos detentores do Poder, encontram-se duas formas de abordagem traduzindo posições de classe. Os artistas que, por devoção ou interesse, faltando à verdade, valorizam e enaltecem imerecidamente as personagens. E os artistas que, com observação atenta e verdade, revelam o retratado no mais significativo do exercício das suas funções.
A arte crítica da burguesia pré-revolucionária é particularmente incisiva. Fundindo o individual e o social, certos retratos são a um tempo obras-primas pelo seu valor estético, admiráveis de penetração psicológica e documentos de uma época. (...)
O exemplo de Goya é também a todos os títulos notável. Porque a sua obra é, no seu significado essencial e em todas as suas modalidades - a pintura, a gravura, as cenas da vida do povo, as festas populares, as touradas, as prisões, as torturas, os caprichos, os desastres de guerra, os disparates -, uma implacável crítica social. Embora Goya fosse o grande retratista da corte - sendo conhecidos 4 retratos de Carlos III, 14 de Carlos IV, 10 de Fernando VII e 113 de mulheres dos meios palacianos -, também no retrato deixou a sua inconfundível e incisiva marca crítica. No mais célebre dos retratos de Carlos IV com a família, Goya trata a realeza com a verdade objectivamente impiedosa, ao mesmo tempo que poupa com ternura, por ser criança, o principezinho.»
Álvaro Cunhal, «A arte, o artista e a sociedade»

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/archive/f/fc/20071215235525!Francisco_de_Goya_y_Lucientes_054.jpg

José Ricardo Costa disse...

Zé, muito obrigado por este texto, é preciosíssimo. Está visto que tenho de conhecer esta faceta do Álvaro Cunhal.