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03 Julho, 2014

ALL THAT VANITAS

Yasushiro Ogawa | On a Commuter Train, 2011

Dei comigo a fazer a um exercício mórbido, embora não tão mórbido como assistir aos jogos da selecção nacional ou acompanhar o fratricídio socialista. Dei comigo a pensar na música que gostaria de ouvir no momento da minha morte.
Mas rapidamente percebi o ridículo da situação. Porquê? Por causa do seu parvo narcisismo. Ok, não tão narcisista ao ponto de imaginar uma despedida assim estridente e apoteótica, encomendando coros, cordas, metais, percussões e o público da minha vida para celebrar com chave de ouro o solene momento da minha despedida, em vez de morrer, solitário e insignificante, numa anónima cama de hospital. Não, nada disso, só uma espécie de epitafiozinho sonoro, uma musiquinha íntima, coisa muito minha, pessoal, privada, discreta, até que o coração pare e os olhos e os ouvidos definitivamente se fechem. Uma coisa assim mais europeia, tipo filme francês, a preto e branco, com mar desfocado ao fundo e os uivos estúpidos das gaivotas a serem abafados pela música a crescer e a crescer cada vez mais.
O que vale é a velhice trazer, mais do que sabedoria, uma sageza que faz perceber cada vez melhor o real valor de tudo, que, em quase tudo, é nenhum. Nós podemos identificar-nos com certas músicas, adoptá-las e escolhê-las para o que bem entendermos. As belas músicas, porém, aquelas que nós dizemos serem as das nossas vidas, não foram feitas para nós e estarão sempre acima do pó que somos e ao qual fatalmente voltamos enquanto protagonistas secundários de um filme sem realizador.

25 Junho, 2014

RELER

André Kertész | Série On Reading

Todos os dias são editados livros que nunca li. Muitos deles, bons, muito bons ou excelentes, que merecem ser lidos e que enriquecem quem os lê. Livros novos mas também clássicos que não cheguei a ler mas que poderia ter lido como aqueles que li mas podia nunca ter lido. 
A mim, porém, anda a dar-me mais para reler do que para ler. Estava a passar a roupa a ferro e a pensar nesta necessidade de voltar atrás e sensação estúpida de estar a chover no molhado. Creio que tenho a resposta. Ler é um jogo entre mim e o mundo. Reler é jogar comigo próprio. Ler significa entregar-me ao mundo através do livro. Reler significa usar o livro que li e com o qual me entreguei ao mundo para agora me entregar a mim próprio. Ler já não serve para usar os livros para me enriquecer com os bens do mundo mas usar-me para me enriquecer ainda mais. Talvez por isso reler seja tão habitual na velhice. Porque o mundo vai continuar a ser um infinito jogo de possíveis do qual, por muito e muito que se leia, conhecemos apenas uma ínfima parte, entre o que foi, o que é e o que virá a ser. Por isso, por muito livros que leiamos, seremos sempre ignorantes, a nossa sabedoria será sempre demasiado pobre face ao esmagador poder de um mundo que nunca é igual a si mesmo. Na velhice, estamos quase a fechar o círculo fatal da nossa finitude e o que haverá para saber é só mesmo o que há para saber. Como diria o Sancho Pança na sua incontinência proverbial, mais vale um mundo que é só nosso na mão, do que um mundo, do qual tivemos apenas uma ínfima parte, a voar.

25 Maio, 2014

A ESTUPIDEZ RADICAL

Brassaï | Expresso Roma-Nápoles, Homem a Dormir, 1955

Nos anos 40 do século passado, Isaiah Berlin saiu filósofo de Oxford para os Estados Unidos, tendo regressado depois a casa como historiador das ideias. A fractura entre as duas identidades deu-se na viagem de avião sobre o Atlântico. Devido a problemas de pressurização teve de fazer grande parte da viagem com as luzes apagadas e uma máscara de oxigénio. Dizia ele que numa situação dessas a única coisa que podia fazer era pensar. E foi então nessas horas de escuridão sobre o vazio do Atlântico que pensou abandonar a filosofia para se dedicar à história das ideias, deixando perplexos os seus colegas de Oxford.
Eu não tenho o hábito de fazer viagens de avião entre Nova Iorque e Londres com as luzes apagadas mas tenho o hábito de me deitar com as galinhas, o que, nada tendo de errado, tem o efeito perverso de por vezes acordar às 4 ou 5 da manhã já pronto para conquistar o mundo. Mas como nunca perco a esperança de poder vir a dormir mais um pouco, em vez de acender a luz para ler, gosto de ficar na escuridão a pensar, seja lá o que isso possa significar no interior de circunvoluções tão secas e carcomidas como as minhas. Numa situação destas pensa-se em tudo e mais alguma coisa. Esta noite, mais exactamente pelas 4 e 20 da manhã, dei comigo a pensar sobre o que tinha dito aqui a respeito da minha estupidez. Mais concretamente, pensar se o facto de ser estúpido em montes de situações faz de mim uma pessoa  mesmo estúpida. Porque uma coisa é dizer com ar blasé que se é muitas vezes estúpido, outra é alguém assumir-se propriamente como pessoa estúpida. Resolvi, pois, pensar muito a sério no problema, com genuína gravitas e elevado sentido introspectivo. 
Dizia eu que sou bastante estúpido em montes de coisas. Eu, que sou um céptico, lá nisto não tenho a menor dúvida. Ora bem, à primeira vista, fazer coisa estúpidas implica ser mesmo estúpido. Sim, do mesmo modo que não faz sentido um tipo roubar e dizer que não é ladrão, matar e dizer que não é assassino, sei lá, fazer política e dizer que não é político, também parece não fazer sentido dizer que se fazem coisas estúpidas e não ser estúpido.
Mas a coisa é mais complicada do que possa parecer. Uma pessoa pode andar montes de vezes constipada mas isso não faz dela uma pessoa constipada. Ninguém diz que "é" uma pessoa constipada, diz-se, sim, que se "está" constipado. Em suma, estar muitas vezes constipado não faz de nós seres constipados, como, por exemplo, "ser" diabético ou "ser" hemofílico. Bingo! Deve ter portanto que ver com a duração. Mas, bolas, será mesmo coisa de duração? Vejamos o Manuel Palito. O Manuel Palito tem mais de 60 anos e só matou uma vez na vida. Ora, isso basta para fazer dele dizer um assassino. Não vamos dizer que o Palito "está" assassino só porque matou uma vez. Não, o homem "é" mesmo um assassino, não sendo preciso um 12º ou 13º crime para chegar à conclusão de que é um criminoso. Portanto, também não é pela duração que lá vamos, continuando eu desgraçadamente confuso em relação à minha identidade.
Entretanto, após mais meia dúzia minutos de aguda e profunda reflexão, concluo que o jogo entre ser ou não ser estúpido pode acabar em empate técnico. Como assim? Pronto, eu posso fazer muitas coisas estúpidas, isso é óbvio e nem vale a pena chutar para canto. Mas também é verdade que faço muitas coisas que não são estúpidas. Não me sinto estúpido por ir a pé para a escola, não me sinto estúpido por não fumar, enfim, não me sinto estúpido por ouvir música enquanto passo roupa a ferro. Só que não existe o conceito de "não estúpido" por não se fazerem coisas estúpidas. Ninguém diz que conhece alguém "não estúpido", ou elogia alguém como sendo "não estúpido" por ter feito uma coisa "não estúpida". Porquê? Porque consideramos normal não fazer coisas estúpidas. Todavia, sendo nós humanos e não entidades perfeitas e imaculadas, também é normal fazermos coisas estúpidas. Ou seja, ser estúpido é tão normal como não ser estúpido. Só que, se na verdade é normal ser estúpido, isso faz com que naturalmente deixemos de ser estúpidos. Seríamos estúpidos se fizéssemos o que não podemos não fazer. Só que no ser humano trata-se de uma remota possibilidade. Se há coisa humana é precisamente fazer o que podemos (devemos) não fazer mas ainda assim fazemos. Creio por isso que seremos todos intrinsecamente estúpidos, o que implica então não sermos estúpidos.
Inspirado numa das muitas metáforas de Kant, um dos livros mais importantes de Isaiah Berlin chama-se The Crooked Timber of Humanity. Como sentir-me estúpido perante tamanha evidência filosófica? Apaziguado, voltei a adormecer, para voltar a acordar a mesma pessoa.

19 Maio, 2014

TEORIA DA RELATIVIDADE

Robert Doisneau | La Petite Monique, 1934

Mais de quarenta anos depois, voltei hoje à escola primária. Desta vez, para fazer a vigilância do exame de Português do 4ºano.
Estavam as crianças a fazer a prova e eu, num ápice, a molhar a madalena no chá. A pensar na minha horrível antiga sala de aula, com os mapas de Portugal e das colónias por causa de cujas províncias, capitais de província, ilhas de Cabo Verde, rios e serras levei muita reguada e sofri terríveis problemas de ansiedade. A pensar no crucifixo crucificado na parede e como ainda hoje considero um disparate o modo como foi escolhido para símbolo de uma religião por meia dúzia de castrados e ressentidos com o mundo. A pensar no patológico respeito e subserviência que nos eram incutidos perante sádicas figuras de autoridade. Não, não tenho boas recordações da escola primária.
Entretanto, chegou ao fim a primeira parte da prova e lá fomos para intervalo. Quando os alunos se estavam a sentar nas carteiras para iniciar a segunda parte, ouço a palavra "Einstein" e uns risos pelo meio. Percebi logo o que se passava e mais uma vez me fiz parvo (já começa a ser recorrente). Perguntei então o que se passava com o Einstein. Uma garota que estava na primeira carteira respondeu:
- És parecido com o Einstein!
Perguntei-lhe, com ar intrigado e franzindo o sobrolho, por que achava ela que eu era parecido com o Einstein, e também se tinha o hábito de tratar os professores por tu. Ela disse que não. 
- Se não - voltei a atacar - por que estás então a tratar-me por tu?
- Porque tens cara de amigo - disse ela, com um sorriso envergonhado.
Fiz o meu papel e a minha pedagogia: dei a entender, através do tom de voz e da expressão do rosto, que não tinha ficado nada satisfeito com o facto de ela me estar a tratar por tu. Cá dentro, porém, bem resguardado da minha seriedade institucional, a minha vontade foi fazer-lhe uma festa na cabeça e tentar mostrar-lhe com um sorriso toda a ternura que senti por aquele momento sem mapas das colónias, um cristo ensanguentado na parede e sem  ter professores sádicos, salazaristas e carunchosos como colegas.
O tempo, felizmente é mesmo relativo. De certeza que para estas crianças o seu tempo de escola primária vai passar muito mais depressa do que passou para mim.

16 Maio, 2014

THE BAREFOOT TEACHER

Robert Doisneau

Pelo que me pude aperceber, Torres Novas deve ter sido o único sítio de Portugal e arredores onde hoje de manhã choveu torrencialmente, mais uma enorme ventania e um cavo trovejar como música de fundo. E, na mouche, no exacto momento em que me dirigia, como sempre, a pé para a escola. Resultado: calças completamente empapadas e coladas às pernas, sapatilhas a fazer plof plof e a arregaçada manga direita da camisa ensopada.
Lá fui estoicamente dar as minha aulas. Depois chegou o habitual período de ir para a a biblioteca, o meu refúgio natural quando faço horas para a aula seguinte. Sentei-me na mesa do costume e saco do livrinho para ler. Entretanto, sentindo o desconforto de uns pés húmidos dentro de umas sapatilhas molhadas e a pensar nos efeitos nefastos para a minha garganta, resolvi descalçar-me e ficar sossegadinho a ler, tipo carmelito descalço.
Foi estranha a sensação de estar descalço num local que em tempos teve uma dignidade que o tornava devidamente obsequiado por quem o frequentava. Fui por isso levado a pensar no quanto desrespeitoso poderia estar a ser o meu comportamento. Mas logo pensei, estando ainda para mais, como de costume, no sítio mais recolhido da biblioteca, que os meus silenciosos pés incomodariam muito menos do que o habitual espalhafato de professores e alunos que por lá falam como no mercado de Torres Novas ao sábado de manhã, que atendem telemóveis como se estivessem a receber chamadas da Nova Guiné, ou que reúnem entre si, fazendo da biblioteca uma ágora grega.
Ainda assim não foi suficiente para me tranquilizar. Lembrei-me de um romance de Patricia Highsmith que li há muito, no qual a protagonista está a enlouquecer mas sem se aperceber. Nós lemos a história a partir da sua própria consciência, ou seja, vê-mo-la a pensar, a raciocinar, a percecpcionar o mundo. Percebemos então que para ela tudo é normal, tudo tem um sentido, uma justificação, uma lógica. Nós, porém, que estamos de fora, vamos assistindo à sua lenta alienação mental. Tive então a consciência de que o meu argumento não bastaria. Muitas das grandes loucuras da humanidade, sejam colectivas ou individuais, são sustentadas através de argumentos. O louco que faz trinta por uma linha apresenta sempre uma razão para justificar o que faz. Estarei eu a enlouquecer, manifestando comportamentos bizarros de que não me apercebo?
Pensei, todavia, que se fosse esse o caso, já disso me teria apercebido através das reacções alheias. Eu faço a minha vida normal, dou as minhas aulas, recebo encarregados de educação, não vejo alunos a rirem-se de mim ou com expressões de escárnio, logo, ainda não chegou o meu tempo de ensandecer, embora acredite que mais cedo ou mais tarde possa ser o meu triste (ou alegre) destino.
Creio que a minha ousadia podológica se deveu apenas a uma liberdade que só a idade pode trazer. A idade pode roubar-nos muita coisa. Mas deus tira com uma mão o que dá com outra. E quanto mais próximo da morte estou mais livre me sinto em relação à vida. E se me apetece acreditar que ler, silenciosamente, um livro, descalço na mesa de uma biblioteca, porque tenho as sapatilhas molhadas, é menos desrespeitoso do que tagarelar como se de um café em noite de bola se tratasse e sem que vejam nisso qualquer anormalidade, quem são afinal os outros para me convencerem do contrário? Deve ser mais ou menos isto que querem dizer quando dizem que ser velho é voltar de novo a ser criança.

24 Abril, 2014

NO OUTRO LADO DO ESPELHO

Elliott Erwitt | North Carolina, 1950

Fui há tempos cortar o cabelo. Quando saí do salão parecia-me tudo bem mas, no dia seguinte, ao olhar para o espelho, apercebo-me de duas irritantes assimetrias no cabelo. Uma, entre os lados direito e esquerdo na zona posterior da cabeça, a outra, nas partes do cabelo que ficam por cima das orelhas.
Admito que não se tratava de um caso grave, nada que me impedisse de sair à rua sem temer os risos e escárnios alheios. Sinceramente, sabia que ninguém iria reparar nessa pequena mácula capilar. Mas reparava eu, e de um modo que começava a irritar-me. Ponderei por isso voltar ao salão para que a minha cabeleireira (sabe deus o que me custa dizer «a minha cabeleireira») dedicasse uns 10 singelos minutos a corrigir a irritante imperfeição. Mas logo pensei no ridículo que seria lá voltar de propósito por causa de uma minhoquice sem importância, indigna de um homem sério e respeitado como eu. Senti um arrepio cá dentro só de pensar na possibilidade de ser visto como criatura caprichosa, mesquinhenta e cheia de picuinhices, um vaidoso de merda, um ridículo narciso obcecado com a profanação da sua imagem no espelho da casa de banho do meu T2, egocêntrico, mariquinhas pé de salsa. Não. Não, não e não. Nem pensar em juntar o opróbrio de dizer «a minha cabeleireira» à possibilidade de ser vilmente epitetado.    
Foi um daqueles momentos em que nos sentimos implacavelmente existencialistas. Que fazer? Entrar de novo no salão seria admitir que me sinto demasiado importante para poder viver com certas imperfeições. Que me levo de tal modo a sério que sou rapaz para voltar de novo ao salão só para corrigir duas imperfeições que em nada comprometiam a minha dignidade psicológica, social, moral ou estética. Eu? Um cinquentão, pai de filhos, um intelectual, entrar num salão de cabeleireira para implorar, com mal disfarçado desespero, duas correcções no meu corte de cabelo? Nunca. Mas como viver então com essa mácula capilar? Como suportar o peso de enfrentar todas as manhãs o espelho e encontrar esse outro de mim que desejo liminarmente rejeitar?
O melhor remédio é mesmo rir da nossa estupidez por nos acharmos mais importantes do que efectivamente somos, rir das nossas imperfeições, aprender a viver com elas, a olhar para elas com indulgente bonomia. Se sairmos à rua com um corte de cabelo menos feliz, acreditamos, estupidamente, que o mundo vai parar para se rir de nós. O que pode dar vontade de rir é pensarmos assim. Um corte de cabelo imperfeito é desagradável? É. No fundo, é um defeito, uma pequena desordem numa harmonia que gostaríamos de manter sempre intocável. Mas nós somos naturalmente imperfeitos e aprender a bem viver é também aprender a saber viver com essas imperfeições.
Que importância tem o nosso cabelo na ordem do mundo? Que importância temos nós, não o raio do cabelo mas nós, nós mesmo? Claro que se acharmos que somos o centro do universo e que o mundo gira à nossa volta, qualquer nódoazinha na nossa camisa, uma camisinha mal passada, um colarinho já a querer estragar-se, soa a um drama imenso. Mas não é. Uma camisa mal passada é apenas uma camisa mal passada. E não é por estar mal passada que nos devemos passar.  No que diz respeito ao meu cabelo, deixei de reparar nele. Existe muito mundo para ver para além do meu espelho. E o que o meu espelho me dá a ver é apenas uma ínfima e insignificante parte desse mundo no qual entrei mas do qual rapidamente irei sair.

19 Março, 2014

DIA 19 DE MARÇO


Uma pessoa é o que é por causa do pai ou apesar do pai. Uma  pessoa será sempre o que é. Mas se o for apesar do pai, sê-lo-á ainda mais.

12 Março, 2014

FACE OCULTA

Loredana Nemes | Unal, Série Beyond, 2009 

Ontem calhou-me o privilégio de fazer uma substituição numa turma de 8ºano onde nunca tinha tido a felicidade de estar. Feitas as apresentações, uma criatura levanta o dedo para dizer, com estridente entusiasmo, que sou parecido com o Einstein. Confesso que a minha susceptibilidade teria sido menor não fosse o caso de já ser a quarta vez que me dizem que sou parecido com o Einstein. E embora concorde, felizmente para mim, e ainda mais para ela, que haja mais semelhança entre mim e o Einstein do que entre mim e a Scarlet Johansson, também é verdade que não há vez nenhuma em que eu olhe para o espelho e seja assaltado pela presença do eminente físico.
Mas quatro vezes são quatro vezes. Não é uma, nem duas, nem três. E não posso ficar indiferente ao facto de haver quatro criaturas, em momentos diferentes, a olharem para mim e a acharem que sou parecido com o Einstein. E se o disseram, se abriram a boca para o dizer com tanto entusiasmo, sem me conhecerem de algum lado, é porque estariam seguros da semelhança.
A primeira vez que me compararam assim a alguém conhecido foi no Algarve, era eu adolescente. Duas inglesas garantiam-me que eu era a cara chapada do Sebastian Coe. Acontece que eu não fazia ideia de quem era o Sebastian Coe. Na altura não havia Internet e eu não tinha a possibilidade de poder descobrir o meu sósia. Naquela idade, tão importante na formação da identidade e da consciência da identidade, a comparação marcou-me. Sebastian Coe passou a ser um fantasma que me perseguia. Eu conhecia o meu rosto de me ver ao espelho mas não podia ver o meu rosto que os outros viam. Saber que era parecido com o Sebastien Coe, fosse lá quem fosse a personagem, era ficar a saber que havia alguém que se eu visse me permitiria ver o que os outros viam quando olhavam para mim. Hoje, fico indiferente quando me dizem que sou parecido com o Einstein. Se me dissessem que sou parecido com Cavaco Silva ou com o Jorge Jesus, não iria perceber mas iria ficar igualmente indiferente. Quero lá saber, é a última coisa na vida que me preocupa, desde que não me venham dizer que sou parecido com o engenheiro Mira Amaral. Mas na altura, pronto, aquilo mexeu comigo.
Quando tempos depois acabei finalmente por ver Sebastian Coe, não me lembro se num jornal, revista ou televisão, ia-me dando uma coisa. Aquele rosto era o meu rosto? Não vou dizer que desenvolvi esquizofrenia por causa disso mas lembro-me perfeitamente de me sentir desorientado a respeito da minha verdadeira identidade física. Olhar para o atleta britânico e ver a ver-me foi assim tão desconcertante como quando ouvimos a nossa voz gravada: aquele não posso ser eu.
Passaram entretanto muitos e muitos anos até voltarem a comparar-me com alguém. Há meia dúzia de anos disseram-me que eu fazia lembrar o Nuno Rogeiro. Para além do cabelo comprido, a única coisa que eu sabia ter em comum com ele é o facto de ambos termos gostado de Rock Progressivo na juventude. Foi por isso com surpresa que registei a semelhança embora já com a mesma indiferença com que reagi à semelhança com o físico alemão com ar de avôzinho bem disposto.
As minhas putativas semelhanças com as três pessoas não teriam chegado aqui, não fosse o caso de ter acontecido o seguinte nessa mesma aula de substituição. Andava eu a circular pelas carteiras quando, ao passar por uma, há uma garota que me diz que a mãe andou comigo na escola. Eu perguntei quem era a mãe, ela lá disse, e eu lá confirmei que sim, que sei quem é a mãe e quem é o pai. E já que entrámos neste registo mais pessoal, resolvi mostrar um pouco de boa vontade. Olhei bem para ela, assim como um aluno de Belas-Artes olha para um rosto que vai ter de reproduzir e arrisco: "É mais parecida com o seu pai do que com a sua mãe, não é?" Disse-me então muito calmamente que não podia sê-lo uma vez que era filha adoptiva. Sem dar parte fraca, insisti: "ok, mas a ser parecida com um deles, será mais com o seu pai do que com a sua mãe". Ela disse que sim mas claramente nada convencida do disparate que estava a ouvir.
Ainda cheguei a pensar recorrer ao conceito de semelhança de família, apresentado por Wittgenstein nas Investigações Filosóficas para jogar com as múltiplas possibilidades de relação entre rostos tão distintos. Mas não é coisa que agora me apeteça. Basta-me saber que não sou parecido com o engenheiro Mira Amaral. Neste caso, ao contrário do que aconteceria com a Scarlet Johansson, e modéstia à parte, felizmente apenas para mim.

09 Março, 2014

UM PEQUENO-ALMOÇO SOPERBO

John Loengard | O Olho de Brassaï, 1981

Ainda que não goste de envelhecer, por enquanto não senti a crise da idade média. Mas sei envelhecer e, nestas coisas, ao contrário de outras, a sabedoria pode ajudar. Não me sinto condenado a ser o que fui ou a ser o que não fui. Para condenações já bastam aquelas de que não podemos mesmo escapar. 
Talvez isso explique o facto de ontem, pela primeira vez na vida, ter comido sopa ao pequeno-almoço. Não o fiz para substituir o meu sagrado e indefectível sumo de laranja de há muitos anos, seja Verão ou Inverno, alterando, por razões doutamente programáticas, a minha dieta matinal. Tanto assim é que hoje regressei de novo ao sumo, que muitíssimo bem me soube. Não sei porque me apeteceu comer a sopa mas também não é coisa que me interesse saber. E como era sopa de espinafres que havia, foi sopa de espinafres que marchou. Houvesse sopa de agriões ou de nabiças ou de caldo verde ou de couve e seria essa que sairia do frigorífico rumo ao micro-ondas. 
Eu não sei se é estúpido ou ridículo comer sopa ao pequeno-almoço, não sei se há países onde haja a tradição de a comer ou se há países onde se seja preso, interrogado e condenado por comê-la. Não sei, não quero saber, nem preciso de saber. Só sei que o meu desejo de comer ontem sopa ao pequeno-almoço é equivalente ao meu desejo de ter hoje acordado sem ele.
Parece-me que aquela mistura de batata, grão, cebola, cenoura, alho francês e espinafres ao pequeno-almoço tem as suas vantagens. Saciei a minha fome e durante mais tempo do que é habitual na parte da manhã. Mas não fui ler nada sobre isso nem quero saber. Se me tivesse feito mal, perceberia que não deveria voltar a comer com o estômago vazio. Não me tendo feito mal, admito poder vir novamente a começar o dia com um prato de sopa.
Envelhecer nunca será bom. Mas envelhecer assim ajuda a não ser menos bom.

11 Janeiro, 2014

UQBAR DO RIBATEJO

Elliot Erwitt

Assustei-me ao sair de um elevador, vendo de repente o meu reflexo num vidro. Tivesse o meu reflexo a mesma consciência que tive ao olhar para ele e acontecia-lhe o mesmo ao olhar para mim.

12 Dezembro, 2013

COMO BOCA PARA CHOCOLATE

Jacques Henri Lartigue | Auto-Retrato, 1904

Eu adoro, será mesmo um dos meus mais atávicos prazeres, comer pais natal e coelhos de chocolate. Olho para eles como se acabasse de sair do livro de Lautréamont, não trocando a massa castanha da cabecinha oca de um pai natal ou de uma orelha de coelhinho depois de despedaçadas na boca como indefesos zagreus nos meus titânicos dentes, por um copo de vinho, por muito bom que seja.
Ora, há já muitos dias que vejo os pais natais a sorrirem para mim na prateleira do supermercado. Dezenas deles, como coloridos exércitos natalícios, rindo-se das minhas tentações. Todavia, ainda não trouxe nenhum, sendo a pessoa que escreve isto a mesma que já vai no quarto triângulo de um Toblerone de frutos e amêndoas. Como explicar isto? Pelo meu lado racional, pragmático, utilitarista.
Os pais natais são estupidamente caros para a quantidade de chocolate que trazem. E, vendo bem, também no que toca à qualidade. O que dá mesmo prazer nem é tanto o chocolate em si mas o desembrulhar a prata e, depois, meu deus, aquela maldita textura oca e aqueles pedaços de chocolate desfazendo-se num mar de saliva. Ora, por um pouco mais pode-se comprar um chocolate muito melhor, chocolate chocolate, chocolate mesmo, tanto em quantidade como em qualidade. Em suma, no decisivo momento em que olho para os pais natal e em que os pai natal olham para mim, é isso que disparam os meus marcadores somáticos sobre o poder decisório da minha vontade, deixando-me completamente desarmado e saindo mais uma vez do raio do supermercado com a consciência simultaneamente tranquila e infeliz, estado tão complexo que nem Hegel o saberia descrever na Fenomenologia do Espírito.
Mas cá está! Não passa de uma estupidez, de uma cegueira racional, calculista e adulta. Só faltam os Supertramp com o Logical Song. Detesto-me assim. Gosto mais de mim infantil, fútil, superficial e a descambar para a parvoíce e a irracionalidade. Toblerone há todo o ano. Pais natal, pelos vistos, nem sempre é quando um homem quiser. Apre!

28 Novembro, 2013

O RECTÂNGULO

André Kertész

Há dias, a propósito do centenário do seu nascimento, fiquei a saber que Benjamin Britten nasceu no dia de Santa Cecília. Achando isso muito engraçado, fui, movido por um misto de entusiasmo infantil, curiosidade mórbida e capricho parvo, consultar um calendário religioso em busca da remota possibilidade do dia do meu nascimento ser dedicado a algum santo. Alguma surpresa? Nada, um cínico espaço em branco no rectângulozinho. Bem me queria parecer.

03 Novembro, 2013

MADALENA SEM AÇÚCAR

Diane Arbus | NYC, 1965

Não sei se envelhecer nos torna inevitavelmente mais cépticos e pessimistas mas também não estou com vontade de ir agora para a rua perguntar às pessoas se estão a ficar mais cépticas e pessimistas. Por agora, vendo esta reportagem, sou levado a acreditar que não. E embora talvez devesse sentir o mesmo entusiasmo por este revivalismo, uma vez que a caixa dos buraquinhos faz parte das minhas memórias de infância, confesso que não consigo entrar nesse encantado registo.
Não se trata de invocar o pavesiano chavão de que nunca se deve voltar a um lugar onde se foi feliz. Porque, neste caso, não se trata do nosso desejo de lá voltar mas de desejar que os nossos filhos ou netos regressem por nós ao lugar onde fomos felizes, vivendo o que nós vivemos. Mais do que uma projecção, trata-se de uma metempsicose, como se o nosso penado espírito infantil fosse habitar os corpos dos nossos filhos e netos. Trata-se, porém, de uma valente ilusão.
Estamos a falar de um tempo em que não havia hipermercados com quilómetros de prateleiras só com chocolates de todos os gostos e feitios e que se levam para casa juntamente com o arroz, o feijão e o detergente para a loiça. Os pobres não comiam chocolate e os que não eram pobres também não tinham, como hoje, chocolate à disposição para comer. Comer chocolate era um momento festivo para uma criança, uma fugaz incursão no princípio do prazer nesse grande continente que é o princípio da realidade, e era dentro desse espírito festivo que furar a caixa para saber a cor que calhava em sorte, adquiria toda a sua magia.
Passa-se com os chocolates o mesmo que com os gelados. Lembro-me de na Primavera já estar a pensar que faltava pouco tempo para aparecerem os gelados. Era no Verão que se comiam gelado, tendo que se dar uma volta de quase 360 graus ao círculo do tempo para se poder voltar a comê-los. Hoje, comem-se gelados todo o ano, por tudo e por nada, e, tal como os chocolates, de marcas e sabores que nunca mais acabam. E o mesmo se passa com os sumos, que eram de laranja ou ananás e pronto. Daí a elegância dos sumos Compal que não só não eram refrigerantes como tinham outros sabores: pêra, pêssego e o moderno tutti frutti. E tudo isto antes da coca-cola, da Seven up, da Sprite e de mais não sei quantas marcas de sumo que hoje se bebem como se fossem água.
Daí este nostálgico romantismo dos pais com a sua velha caixa de buraquinhos ser absolutamente inocente. Claro que as criancinhas irão sempre achar alguma graça ao suspense da cor. Como não achar? Como acham piada às dezenas de prendas que recebem no Natal ou no aniversário para logo pouco depois se esquecerem delas. Nada que ver com o velho entusiasmo dos pais, quando um chocolate era um chocolate era um chocolate e não apenas um chocolate.

26 Julho, 2013

PONTEIROS PARADOS

Ingmar Bergman | Morangos Silvestres [fotograma]

O relógio, sensível e frágil, apesar dos ponteiros parados, precisa todos os anos de uma pequena revisão. E nada melhor do que o Estio para o fazer. O relojoeiro, homem sério e meticuloso, precisa de tempo para se dedicar à árdua tarefa de afinar as peças para que os ponteiros continuem bem parados. Por isso, os ponteiros, já de si parados, parados irão ficar.
E deseja umas boas e tranquilas férias a todos os que habitualmente passam por aqui para não ver as horas.

16 Julho, 2013

HIPSTER

Alfred Eisenstaedt|1939

Graças à minha filha, sei há anos o que é um geek ou um nerd. Acabei agora também de saber o que é um hipster. Desta vez, porém, para além de saber o que é um hipster fiquei igualmente a saber que sou um hipster: uma pessoa que se esforça por ser diferente das outras, assim com uma espécie de horror à normalidade.
Não, não como gafanhotos fritos, não durmo debaixo da cama com medo que o tecto me caia em cima, não sou do Sporting, não levo o rádio para a praia para ouvir a missa da Rádio Renascença deitado na areia enquanto como um Magnum de amêndoas, nem tenho o hábito de andar em casas de banho públicas a espreitar os pirilaus dos portugueses. Serei um hipster devido a razões bem mais bizarras, radicais e fracturantes: não tenho facebook, não vejo televisão, odeio praxes académicas e, cereja em cima do bolo, tcharam!, tenho uns óculos de hipster.  
Ter filhos é bom mas também tem os seus inconvenientes. Um deles é sermos obrigados a olhar para nós próprios numa fase da vida em que já devíamos adormecer tranquilamente no sofá com o Expresso espalhado pelo corpo e metade da sala. Em vez disso, tive ontem dificuldade em adormecer apoquentado com a ideia de poder não ser normal.
Serei normal, não serei normal? Serei normal, não serei normal? Serei normal, não serei normal? Mais até do que de uma angústia existencial, trata-se de uma angústia sociológica. A questão aqui não é saber de onde venho, para onde vou ou se posso vir a encontrar a Marilyn Monroe no além depois de morrer. A questão é saber se sou ou não como os outros, se sigo um padrão, uma média. Quando olho para os gráficos sociológicos sinto-me um pouco como se devia sentir o Kierkegaard sempre que olhava para o sistema hegeliano e perguntava: "Mas onde raio estou eu no meio desta merda?" A sociologia faz-me sempre sentir um átomo, um carneiro, um norte-coreano ou, pior ainda, um membro de um grupo parlamentar. E acho aborrecida a ideia de fazer o que os outros fazem, dizer o que os outros dizem ou gostar do que os outros gostam.
Mas não me importo que tal aconteça desde que seja isso que eu ache que deva acontecer. Há muitas coisas que não são boas só porque quase toda a gente gosta delas. Não. O que acontece é que quase toda a gente gosta delas precisamente porque são boas, e dessas não me importo também de gostar. O que se torna um bocadinho chato é às vezes quase toda a gente dizer coisas, fazer coisas ou gostar de coisas, sem se saber muito bem por que razão é assim. Quer dizer, não tem mal nenhum. A vida está cheia de convenções sociais sem uma ponta de racionalidade. Mas não tem que ser assim.
O que eu acho é que a obsessão em ser diferente dos outros pode acabar por ser tão idiota como a obsessão em querer ser como os outros. Aquele que vive para ter que ser diferente dos outros acaba por reproduzir os comportamentos de todos aqueles que querem ser diferentes dos outros, o que é uma forma de ser aquilo que outros são. Ora, eu não quero ser igual nem diferente. Eu simplesmente olho para mim e depois logo vejo o que me apetece ou não fazer. Não vejo televisão porque acho uma seca ver televisão. Se não achasse, veria televisão. Não tenho facebook porque já tive e aquilo irritava-me e eu não gosto de coisas que me irritem. Se não me irritasse eu teria facebook. Se as praxes académicas fossem dignas de seres racionais, eu alinharia nas praxes académicas. E tenho os óculos que tenho porque quando entrei na loja para os comprar foi destes que eu mais gostei depois de ter experimentado meia dúzia.
Dr Freud, serei anormal? Serei normal? Ajudem-me, por favor!

20 Junho, 2013

ARDOR MUNDANO

Inge Morath | Durante a rodagem de The Misfits [1960]

Sim, ardor mundano. Dei com a expressão, hoje de manhã, durante a minha coadjuvância ao exame de Filosofia, enquanto relia Le Rouge et le Noire. A versão é portuguesa mas tem mais pinta dizer Le Rouge et le Noire, é como dizer a Recherche para o Proust ou falar no Tristam como se eu tivesse andado a jogar ao berlinde com ele na escola primária.
Dei com a expressão na frase

O senhor Chélan achou nas suas maneiras [de Julien Sorel, a personagem principal] um certo ardor mundano, bem diferente do que devia ter um futuro padre. 

e fiquei logo agarrado. Porque se há coisa que jamais senti na vida, ao contrário de outros mais inconfessáveis ardores, foi um ardor mundano. Sei que não pareço filho do meu pai nem neto do meu avô. Mas creio que o mais intenso e emocionante acto político da minha vida foi ter-me levantado do sofá quando soube que Mário Soares tinha ganho a Freitas do Amaral.
Pareço muito pouco grego ao falar assim. E é verdade que nós, europeus, começámos por ser gregos antes de sermos cristãos. Não por acaso Péricles chamava idiotai a todos aqueles que não se interessavam pelos problemas políticos da cidade, passe a redundância. Pronto, serei um idiota, assumo, e peço desculpa ao meu avô e ao meu pai por este involutivo processo de transmissão genética. Mas se Péricles Platão e Aristóteles eram gregos, menos gregos não seriam Epicuro, Zenão ou Diógenes. Epicuro dizia mesmo para não nos envolvermos na vida política, o que mais importa é a salvação pessoal, sendo a vida política bem menos relevante.
Nada tenho contra a vida política. Alguém tem que a fazer, não é verdade? Os políticos são precisos, como são precisos canalizadores, radiologistas ou produtores de melão. Mas isso não significa que todos nós tenhamos que ser canalizadores, radiologistas ou produtores de melão. E nada tenho contra ler jornais todos os dias, ver debates televisivos, acompanhar análises políticas e económicas do mainstream plumitivo. Creio que é útil e aconselhável estar a par do que se passa no mundo, não vá o mundo esfaquear-nos pelas costas. Mas o mundo é o que é e nós somos o que somos. Tal como a intersecção na teoria dos conjuntos, há uma parte do mundo que pertence simultaneamente a nós e à realidade social. Mas também de acordo com essa mesma intersecção, nem tudo o que nos pertence, pertence à realidade social, e nem tudo o que pertence à realidade social, nos pertence.
Conhecesse-me o senhor Chélan e diria estar eu muito mais destinado à vida de padre do que à de presidente de uma junta de freguesia. Para já não falar em coisas ainda mundanamente piores, que me roubassem o já tão pouco tempo que tenho para me encontrar diariamente com os meus mortos. 

26 Março, 2013

MOSQUETEIROS


Já vimos que nenhum objecto é em si mesmo desejável ou detestável, valioso ou desprezível, e que os objectos recebem essas qualidades da constituição e do carácter peculiar do espírito que os contempla. Consequentemente, para diminuir ou aumentar o valor que uma pessoa atribui a um objecto, para excitar ou moderar as suas paixões, não existem argumentos ou razões directas que possam ser usados com alguma força ou influência. Apanhar moscas, como Domiciano, se provocar mais prazer, é preferível à caça de animais selvagens, como William Rufus, ou à conquista de reinos, como Alexandre. David Hume, Ensaios Morais, Políticos e Literários

Gosto de políticos cuja grande missão não é muito mais do que se entreterem a apanhar moscas. E quanto mais moscas apanharem melhor será o ambiente dos governados. Pode não ser um objectivo épico e grandioso que faça um político ficar na história. Mas vale o que vale e já nos podemos dar por satisfeitos por não termos moscas a incomodar-nos e a sujar o ambiente. Quando, pelo contrário, alguns políticos se metem a inventar e a mudar radicalmente as suas sociedades, nunca podemos prever as consequências que daí resultarão. Mais vale uma mosca morta na mão de um político pouco ambicioso do que abutres famintos e nervosos a voar sobre as nossas cabeças. Políticos como Hitler não haverá, felizmente, muitos. Mas andam por aí muitos políticos que, não sendo abutres nazis, revelam uma imaginação ilimitada para dar cabo das vidas das pessoas sem que isso lhes tire o sono. Prefiro, de longe, os meus mosqueteiros.

20 Março, 2013

MÃOS

Germaine Krull | Estudo de Mãos

Ontem, telefonou-me a minha filha a perguntar se eu já tido à caixa do correio. Eu disse que sim.  
"E então?"
"E então o quê?" 
"Não viste o que eu te mandei?"
"Mas não me mandaste nada."
"Mandei, mandei!"
"Mas estou neste momento a olhar para a caixa do correio e não tenho cá nada."
"Não é essa, é  mesmo a caixa do correio, vai lá abaixo ver".

A minha filha tem 20 anos e farta-se de saber coisas de computadores, nos quais começou a mexer ainda mal sabia falar. Eu, de computadores pouco sei e já tinha feito 30 anos quando mexi num pela primeira vez. Porém, nos espontâneos e improvisados mecanismos da minha consciência, "caixa do correio" passou já a equivaler a "e-mail". Não deixa de ser engraçada esta minha tão moderna e tecnológica associação, quando passei parte da juventude a descer as escadas da minha velha casa para ver se tinha cartas na caixa do correio, cartas essas que ainda hoje guardo religiosamente. Por sua vez, na cabeça da minha filha, já formatada por gadgets, programas e funções informáticas, ainda existe um cantinho no qual ocorre a possibilidade de escrever um postal à moda antiga endereçado para uma caixa de correio à qual se chega, não através de uma password, mas com uma chave saída do bolso. 
Pela lógica devem ser os pais a ser um exemplo para os filhos. Neste caso, já completamente submerso numa comunicação virtual feita de tipos de letra e de tamanhos de letra que surgem frias e distantes num ecrã de vidro, fui salvo por um postal à moda antiga, com letras desenhadas à mão e enviado à mão. E que com uma mão eu agarrei.

19 Fevereiro, 2013

COM UM BRILHOZINHO NA ALMA

 Herbert List | The Iron Veil

Dizia Kant que havia duas coisas que o enchiam de respeito e admiração: o céu estrelado acima dele e a lei moral dentro dele. O céu estrelado fazia-lhe sentir o peso da insignificância do ser humano perante a escura e esmagadora imensidão dos espaços cósmicos. O que somos nós no universo? Uma merda, uns vermes cósmicos que, se esmagados por um cometa, não provocam qualquer cócega na Via Láctea.
Mas, depois, olhando para dentro de nós, vamos encontrar a lei moral. Ah! A lei moral. As leis do universo transcendem-nos, não são nossas, não fomos nós que as fizemos. Limitamo-nos apenas a conhecê-las. Mas a lei moral, ah ah, essa pertence-nos, é nossa e ninguém nos tira. Em que parte do universo é que há lei moral? Tanto universo, tanta estrela, tanta galáxia, onde raio vamos encontrar uma lei moral? Em lado nenhum excepto dentro de nós, dentro destas merdas sem qualquer valor, estas insignificantes pulgas que passam despercebidas no dorso do universo. Esse universo esmaga-me mas a lei moral que só eu possuo e conheço permite-me vingar da sua estúpida e inútil imensidão, escarnecer de um universo sem consciência de si, encher-me de orgulho antropológico apesar de não sermos propriamente uns anjinhos com asinhas a dar a dar.
Lembrei-me disto por se comemorar hoje o 540º aniversário de Nicolau Copérnico. Saber isso obrigou-me mais uma vez a pensar que nunca me interessei por Astronomia, que olhar para o céu através de um telescópio entusiasma-me tanto como assistir num sábado à noite a um Paços de Ferreira-Rio Ave na televisão e que fico absolutamente indiferente a tudo o que se passa para lá da estratosfera desde que não se venha meter connosco. O macroscópico está, para mim, ao mesmo nível do microscópico, mas, neste último, ainda me posso  preocupar com as bactérias ou os vírus que me podem provocar febre e dores musculares.
Quero lá saber se é o Sol que gira em torno da Terra ou se é a Terra que gira em torno do Sol. É igual ao litro. Mas a lei moral, essa sim, continua a preocupar-me, essa sim, continuo a persegui-la. Posso morrer ignorante e estúpido a respeito da escura e tenebrosa imensidão do espaço cósmico. Quero lá saber, que se lixe o universo. Morrer sem a consciência tranquila, isso sim, é morrer na mais densa e tenebrosa escuridão no interior desse universo que pode ser insignificante, ridículo, irrisório, mas que é o meu. Se quando eu morrer pedir mais luz, não é a das estrelas que peço.