12 janeiro, 2018

CASAL GARCIA


Sinceramente, tenho que dar razão a Schopenhauer quando diz que homens e mulheres, ao sentirem o desejo de acasalar, estão, como marionetas, a ser instrumentalizados pela natureza para que venham a ter filhos. Qual a diferença entre um homem e uma mulher que acasalam, esta engravida e deixa descendência, e duas aves, dois peixes, dois insectos ou dois mamíferos que acasalam, a fêmea engravida e deixa descendência? Nenhuma. Claro que o processo é diferente mas a essência é a mesma: somos indivíduos, desejamos e agimos em nome individual mas estamos apenas a servir a nossa espécie. Apaixonamo-nos, acreditando ser em vista da nossa felicidade individual mas isso não passa de uma armadilha para fazer com que a espécie sobreviva, tal como acontece com qualquer outra. Se isto for verdade, não ter deliberadamente filhos parece ser um acto de resistência individual, a expressão da liberdade de um indivíduo que se recusa a medir as suas acções pelos interesses de uma abstracção. Como diria Søren Kierkegaard, outro filósofo da mesma época, a multidão é uma mentira e ser indivíduo, assumir-se como indivíduo, passa por lutar, não sem algum romantismo, contra o esmagador poder da multidão. Porém, no que diz respeito a deixar descendência, a coisa torna-se complicada. Se as pessoas deixarem de ter filhos para assim assumirem a sua individualidade, a espécie acaba e acabando a espécie deixa de existir pessoas para assumir a sua individualidade. Sendo assim, ter filhos parece ser um imperativo não só natural como moral, não tendo nós outro remédio senão aceitar o poder tirânico da natureza e a nossa submissão a essa vã abstracção que é a espécie, deixando-nos de caprichos metafísicos sobre uma liberdade individual que, ao contrário do que possa parecer, nos torna cada vez menos, não só o que somos mas também  o que devemos querer ser. Cada vez que nasce um filho há um casal que acaba de entregar a sua carta a Garcia, cumprindo assim a sua, biologicamente nobre, missão, dando-se tanto por satisfeitos como no primeiro e prazenteiro passo, com ou sem cigarro no final, dessa procriação.