01 Julho, 2012

TEMPOS LÍVIDOS


A sinonímia é encarada de modo diferente por quem olha para a língua apenas funcionalmente, querendo reduzi-la à sua máxima simplicidade, e por quem a vê como superior exercício, exclusivo de seres racionais,  em virtude da qual se podem exprimir pensamentos, emoções, sentimentos, ou descrever objectos, paisagens e factos, de um modo mais subtil e complexo.
Existem situações em que o uso de diferentes sinónimos me parece arbitrário. Será muito diferente dizer que fiquei "perplexo", "estupefacto", "atónito", "espantado" ou "embasbacado"? Se diferenças há, eu não as vejo, a não ser por mera sensibilidade fonética. Partindo deste exemplo, eu entendo o objectivo de Beckett em escrever os seus textos numa língua que não era a sua (o francês) para se obrigar a uma maior contenção e disciplina na linguagem.
Mas nem toda a sinonímia deve ser entendida deste modo arbitrário. Vejamos a seguinte sequência de palavras que possuem em comum a expressão de um mesmo elemento cromático: branco, alvo, lívido, ebúrneo, níveo, lácteo. Porém, em virtude de uma diversidade, tanto etimológica  como sinestésica, ancorada a cada uma delas, o seu uso deixa de ser arbitrário, passando a obedecer a critérios mais apertados.
Pensemos, por exemplo, no modo como se pode abordar a pele de uma mulher. Dizer que uma mulher tem uma pele branca pressupõe um mero juízo funcional e objectivo. Como elemento de identificação física, diz-se que uma mulher tem a pele branca do mesmo modo que também se diz que é loira, mora em Elvas e tem um Opel Corsa branco com tecto de abrir. Porém, será a mesmo coisa descrever a pele de uma mulher como alva, tendo "alva" que ver com alvor ou alvorada, enquanto primeira claridade do dia? Ou a pele de uma mulher como láctea, tendo "lácteo" que ver com leite? Ou nívea, enquanto associada à neve? Ou ebúrnea, estando associado ao marfim? Também "lividez", enquanto sinónimo de "brancura", terá de ser usado num contexto muito específico, associado a doença, desmaio, má disposição. Dizer que alguém tem uma pele lívida ou que "ficou lívido" não é o mesmo que dizer alguém tem uma pele branca. Daí se poder dizer que o Opel Corsa é branco mas nunca que o Opel Corsa é lívido.
Quando descreve a chegada de Maria Eduarda ao Hotel Central, Eça fala de "uma senhora alta, loira, com um meio véu muito apertado e muito escuro que realçava o esplendor da sua carnação ebúrnea". Estamos, com esta frase, em plena essência do literaturar, enquanto construção idealista, em oposição ao exercício meramente funcional da língua com base num materialismo grosseiro no modo como se constrói a percepção da realidade.
No modo como descreve a sua carne, Eça parece estar a querer dizer-nos que Maria Eduarda, de acordo com um registo meramente funcional, objectivo e pragmático, é boa como o milho. Num plano puramente objectivo, Eça invoca uma carne branca que submerge (ou emerge, fico baralhado) debaixo do véu escuro, uma carne que tanto provoca o desejo de acariciar como de agarrar e apertar. Uma carne que tanto provoca a mão que, ao nível da pele, acaricia ou afaga (carícia e carinho têm a mesma raiz) como provoca a garra feroz e predadora que domina a carne apetitosa da fêmea. Todavia, a partir do momento em que traduz o esplendor físico de Maria Eduarda por "carnação ebúrnea" dá-se um processo de depuração literária que embora mantenha a linguagem no plano da descrição física ou material, acaba por condensar esse plano num outro mais formal e ideal.
Talvez daí fazer sentido Baudelaire dizer, em contraste com o artista, que "a foda é o lirismo do povo" ("Plus l’homme cultive les arts, moins il bande. Il se fait un divorce de plus en plus sensible entre l’esprit et la brute. La brute seule bande bien, et la fouterie est le lyrisme du peuple", Journaux Intimes, 1887).
Mantendo-nos neste registo, podemos assim dizer que reduzir a linguagem a um plano funcional é reduzi-la a  uma crueza quase animal, associá-la aos mecanismos mais básicos e funcionalmente indispensáveis da mente humana. Para quê dizer "alvo" ou "níveo" ou "lívido" se basta dizer "branco"? É por isso que o povo fala como fode e fode como fala. Agora, o problema não é o povo falar assim. O povo sempre falou assim e  até tem piada ao falar assim. Grave, mas mesmo muito grave é a academia, a escola, a classe científica, os intelectuais, acompanharem os novos tempos e entrarem na lógica do popular e rejeitando o prazer e a subtileza da erudição. O miserável Acordo Ortográfico não passa de mais um exemplo disso mesmo. Parece que, de repente, passou tudo a querer falar e escrever como o povo que fode, reduzindo a linguagem à sua mera funcionalidade. Por isso, no que à linguagem diz respeito (entre outras coisas), parece que estamos mesmo literalmente fodidos. E mentalmente lívidos, claro.