16 abril, 2012

PALIMPSESTO

                                                           Dora Maar | Duplo Retrato com Chapéu

O passado é sempre uma coisa futura. Será sempre aquilo que a memória, no futuro, consegue resolver. Um dia, numas escavações em Roma, uma qualquer casa soterrada virá alterar a nossa percepção da vida doméstica na Roma antiga. Em África, a descoberta de um esqueleto virá alterar a nossa percepção do paleolítico. O passado é tanto feito do que ainda não sabemos, ou do que nunca chegaremos mesmo a saber, como do que já sabemos. Porque o que julgamos saber será sempre uma parte do que há para saber, uma ignorância sobre o que ainda há para saber ou uma distorção do que seria suposto saber.
O passado será sempre o que a futura memória consegue resolver. E enquanto houver futuro o passado nunca será uma casa fechada, sem portas e janelas onde já ninguém pode entrar. O passado será sempre um palimpsesto arquitectónico, como aqueles mosteiros ou conventos medievais, aumentados, ao longo de novas épocas, com outros estilos e funções. Camada  sobre camada, cada uma apagando ou modificando a outra. E quanto mais se escava maior será a consciência do que ainda há para escavar.