24 Abril, 2012

OBSCURA MEMÓRIA

                                                                              JRC

Chegou há dias uma aluna transferida de outra escola. Tendo eu leccionado nessa escola há anos, pensei, e disse-lhe, que nos devemos ter cruzado várias vezes mas que por ela andar então num nível de escolaridade mais baixo não me lembraria do seu rosto. Acontece, porém, que eu estive naquela escola há...18 anos, a idade actual da aluna. Ou seja, eu estive naquela escola no ano em que ela estaria no hospital a nascer. Se eu fosse um computador ou um ser humano integralmente racional, de imediato eu teria percebido que, há 18 anos, jamais poderíamos ter estado em simultâneo naquela escola
Só que, para além de, felizmente, estar muitíssimo longe de ser integralmente racional, eu sempre tive também uma péssima relação com o tempo, nomeadamente, o tempo passado. Eu e o tempo nunca nos demos muito bem, tanto com o tempo recente como com o tempo mais longínquo. Ainda que se tratem de coisas importantes, eu nunca sei dizer se X foi há 5 ou 6 anos ou quanto tempo durou Y. Porém, com algum esforço, concentração e exercício, consigo lá chegar. Mas há uma linha no tempo para lá da qual entro numa espécie de sótão pouco iluminado onde tudo está desarrumado, disposto sem critério ou etiquetas. Para mim, ter estado naquela escola há 10, 18 ou 20 anos, será igual.
Há uma memória recente que podemos organizar cronologicamente, ainda que com algum esforço. Sabemos que A foi antes de B, que foi antes de C que, por sua vez, foi antes de D. E a duração de A, B ou C. Podemos ainda compreender os nexos causais dos nossos acontecimentos mais importantes. X aconteceu por causa de Y que, por sua vez, aconteceu por causa de Z que está relacionado com D. Trata de uma memória funcional, muito importante para nos podermos orientar existencialmente, compreendendo o que se passa tanto em nós como à nossa volta, para que a nossa consciência possa gerir a relação entre o passado recente, o presente e o futuro recente.
Existe, porém, e no meu caso é quase escandaloso, a tal linha a partir da qual esta funcionalidade se perde. Perdem-se as cronologias, perdem-se as durações, perdem-se as causalidades. Que tipo de memória será essa, essa memória sem relógio e sem calendário? Para explicar o que se passa comigo, preciso de recorrer à diferença entre o cinema e a fotografia O sótão pouco iluminado que referi há pouco nada tem que ver com esquecimento mas com critérios de arrumação, de arquivamento. Imaginemos um sótão escuro cheio de objectos antigos que deixaram há muito de ser usados. O sótão é escuro mas, graças a uns feixes de luz que penetram desordenadamente por umas clarabóias dispersas, cada objecto está iluminado. Mas está iluminado isoladamente, descontextualizado, desenraizado de qualquer narrativa. Ora, é isso que se passa na fotografia em comparação com o cinema. Este está associado a uma narrativa, a uma sequência temporal e a uma duração da qual temos consciência enquanto vemos o filme e até depois dele, a fotografia,  e quem diz a fotografia, diz um fotograma do filme, não tem antes nem depois nem duração. É um mundo próprio que se pode misturar com outros mundos próprios (outras fotografias) de um modo caótico e desordenado.
São assim as minhas memórias a partir de uma certa linha temporal: mais imagens soltas, claras ou difusas, e emoções ou pensamentos dispersos, do que filmes que fluem apolineamente perante os nossos olhos. Daí a minha confusão perante a minha aluna. A partir de uma certa linha temporal, quase tudo na vida se mistura. Não por acaso se diz, em psicanálise, que o inconsciente é atemporal.