26 abril, 2012

O URSO E A ARARA

                                                                      Elliot Erwitt

Diz Miguel Portas, numa antiga entrevista, e em tom de brincadeira, que quando discute política com o irmão Paulo, não procura convencê-lo do erro das suas ideias, do mesmo modo que este também não procura convencê-lo do erro das suas. E remata: não vale a pena.
Que não vale a pena discutir e tentar convencer o irmão, não é novidade nenhuma. O que me interessa aqui é a noção de erro quando associada às ideias de outra pessoa que pensa de um modo diferente do nosso  e, à luz do que é a filosofia política, saber se faz algum sentido falar em ideias certas ou erradas.
Obviamente que para Miguel Portas as suas ideias estão certas e as de Paulo Portas estão erradas. E vice-versa. Porém, não faz sentido falar aqui em ideias certas ou erradas mas apenas em diferentes e livres concepções de vida, de mundo, de sociedade que, sendo incompatíveis, não podem estar certas nem erradas. Uma incompatibilidade que anula a possibilidade do erro em oposição à verdade.
Existe erro quando um juízo não corresponde a uma realidade objectiva. É errado dizer que um carro em andamento está parado, que Manuel Alegre é Presidente da República ou que 2+2 são 5. Mas onde está o erro de Miguel? Onde está o erro de Paulo? Por que razão estarão errados? Imaginemos um urso polar a discutir com uma arara sobre o melhor sítio para viver. O urso polar diz que deve ser frio e cheio de gelo. A arara, contesta, dizendo que deve ser quente e húmido. Tudo certo até aqui. Mas como pode o urso polar dizer que a arara está errada por não pensar como ele? E como pode a arara dizer a mesma coisa? Têm ideias opostas, mas a verdade de um não implica o erro do outro como acontece com afirmações contraditórias cujo valor de verdade é incompatível. As afirmações "O João está na praia a nadar" e "O João não está na praia a nadar" não podem ser simultaneamente verdadeiras nem simultaneamente falsas. A verdade de uma implica necessariamente a falsidade da outra. Mas, neste caso, trata-se de uma realidade objectiva.
A filosofia política, pelo contrário, é uma arena de muitos interesses e conflitos que jamais poderão ser resolvidos. Se há alguém que deseja uma sociedade cujo valor mais importante é a igualdade, outro haverá que deseja uma sociedade onde a liberdade se deve sobrepor à igualdade. Como resolver isto? Não se pode. Porque se tratam de valores não só incompatíveis mas também incomensuráveis. O gelo é desejável para um animal que foi feito para o desejar porque é ali que encontra o seu alimento e as condições para poder ser feliz. O calor e a humidade, ou seja, o oposto, são desejáveis para quem os deseja precisamente pelas mesmas razões que levam o outro a desejar o oposto do que este deseja. Sempre assim foi e assim será sempre. Por isso a história nunca acabará, nunca haverá aquilo a que se convencionou chamar«o fim da história». A não ser que um dia tenhamos um mundo só de Miguéis ou só de Paulos. Houve quem já o tentasse. Sabemos bem qual foi o resultado.