01 abril, 2012

O SENTIDO DA VIDA [BENFICA 2-1 BRAGA]


Dizia Kant que havia duas coisas na vida que o maravilhavam. Incrivelmente, nenhuma delas relacionada com sexo, por isso, incompreensíveis para os padrões actuais: o céu estrelado acima dele e a lei moral dentro dele. Quer dizer, nós olhamos para a imensa infinitude do espaço cósmico e sentimo-nos o Prince no meio dos Chicago Bulls durante os 2 minutos pedidos pelo treinador: uma insignificância antropológica, uns vermes ônticos, a cara da Alexandra Lencastre quando acaba de acordar. Mas, depois, olhamos para o interior da nossa alma e descobrimos a lei moral. Ah! Qualquer coisa de importante, elevado, eloquente, magnânimo, uma luz brilhante que cintila na escura, fria, silenciosa e estúpida imensidão do espaço cósmico.
A alma humana é o único sítio do universo onde existe a lei moral embora com o inconveniente de ser também o único sítio do universo onde existe o desejo de comprar a Playboy e o Correio da Manhã ao Domingo. Para muitos, não eu, a moral é uma possível explicação para o sentido da vida. Contraria­mente ao que se passa com as inexoráveis leis da natureza (uma pedra quando cai, um relâmpago, a líbido da Clara Pinto Correia), a lei moral permite-nos ser os grandes protagonistas da nossa própria existência, verdade inquestionável até ao momento em que nos lembramos que temos de pagar impostos.
O universo existe e poderia não existir. Tudo é contigente. A Terra existe mas poderia não existir, assim  como os rinocerontes, as orquídeas, os orangotangos ou as tunas académicas. Mas a lei moral faz-lhes pensar que são mesmo importantes e que têm mesmo de existir. Se não existissem, a lei moral não existiria e a lei moral tem de existir pois se não existisse passaria a não haver nada no universo que tivesse mesmo de existir, o que seria uma enorme maçada, sobretudo quando não há mesmo nada para fazer depois de arrumarmos as compras do supermercado. Há, claro, o problema de alguns terem dificuldade em encontrar a lei moral, ainda que a busquem nos sítios mais recônditos da sua alma, sobretudo políticos, dirigentes desportivos ou a Teresa Guilherme quando precisa de ganhar dinheiro. Mas, para quem acredita verdadeiramente na lei moral, o facto de haver pessoas que não conseguem encontrá-la não quer dizer que não exista. O facto de um tipo, após 20 cervejas, não saber o caminho para casa  não significa que a casa não exista. Mas o problema não é esse. As leis morais existem, ainda que andem um pouco esquecidas. O problema é mesmo pensar que as leis morais, podendo existir, podem mostrar o sentido errado. Ou perceber que haver uma lei moral é condição necessária para a vida ter sentido mas que pode haver lei moral e a vida continuar a não ter sentido. Por exemplo, para haver uma exposição de arte é necessário haver obra de arte, mas também é verdade que já entrei em museus onde supostamente havia obras de arte mas não consegui dar com a exposição, chegando mesmo a confundir uma instalação com a zona dos lavabos.
Em suma, estou mesmo convencido de que a vida não tem sentido nenhum. Mas isso não significa que acorde necessariamente com uma enorme vontade de dar um tiro na cabeça ou de passar o dia a fazer zapping em frente a uma televisão. Também já vi alguns filmes do Godard ou algumas tácticas do Jorge Jesus e consegui sobreviver. Mas também é verdade que haverá sempre bons filmes para ver, e, por vezes, o Benfica também consegue ganhar.