11 Abril, 2012

A ARTE DO MONÓLOGO

                                                                       Garry Winogrand

Os professores sabem bem o que é serem obrigados a falar mais alto porque os alunos conversam entre si. Ou sabe qualquer pessoa que, num espaço fechado com muita gente a falar, tem de falar mais alto para se fazer ouvir. Mas, falando cada pessoa cada vez mais alto, isso vai fazer com que o ruído seja cada vez maior, obrigando todas as pessoas a falar cada vez mais alto. Chama-se a isto o Efeito de Lombard: o aumento do esforço para falar em virtude da incapacidade para se fazer ouvir e de ser compreendido devido ao barulho. Barulho que, apesar da tentativa de comunicação, impede a própria comunicação.
Eu acredito que é possível aplicar uma espécie de Efeito de Lombard a outras situações, bastando trocar o o ruído por outros factores que bloqueiam a comunicação. É por isso que eu não acredito no diálogo e muito menos em discussões. As pessoas devem dizer o que pensam e sentem. Sou um acérrimo defensor da transparência, da clareza, da verdade, da clarividência racional, tanto a falar como a ouvir. Mas, insisto, não acredito nisso em tempo real, em directo. É por isso que, em vez de um diálogo entre duas pessoas, prefiro o monólogo. Ou seja, em vez de um diálogo, dois monólogos que se vão mutuamente acompanhando, como duas linhas paralelas que nunca se chegam a misturar. Numa discussão há sempre qualquer coisa em jogo. E sempre que há qualquer coisa em jogo, há um vencedor e um derrotado. E, havendo um vencedor e um derrotado, o diálogo nunca pode ser claro, transparente, isento, será sempre condicionado por forças obscuras, interesses pessoais, emoções, vontades de poder.
Numa discussão há duas pessoas a falar e nehuma a ouvir. Ambas pensam que ouvem mas limitam-se apenas a falar, presumindo que a outra está ouvir. E quanto mais falam menos se ouvem. Falar em tempo real, embora quase sempre inevitável, nunca é uma verdadeira comunicação. Pelo contrário, falar em tempo diferido, através de dois monólogos que se vão encontrando numa espécie de tempo ideal ou certeiro, será sempre a melhor maneira de "falar" e de "ouvir". Escrevo com aspas para salvagurdar o que se passa com o discurso escrito, no qual, embora não se fale nem se oiça, não deixa de ser um modo de falar e de ouvir.
E acredito que o modo ideal de falar e de ouvir é o monólogo escrito. Como um jogo de xadrez. Um jogo de xadrez não passa de um cruzamento entre dois monólogos, um jogo entre duas pessoas que jogam sem falarem entre si ou olharem uma para a outra. É verdade que no xadrez, sendo um jogo, também há um vencedor e um vencido. Ou empate. Mas há um vencedor porque houve um melhor argumento, um encadeamento mais racional de jogadas, e não porque um grita mais, ou fala mais depressa ou recorre mais facilmente a ardis, falácias, manipulações, sejam estas mais explícitas ou implícitas, mais conscientes ou inconscientes. Em silêncio, lentamente, tudo se resolve na meridiana claridade do tabuleiro. Uma discussão, ou um simples diálogo, pelo contrário, lembra mais um combate de boxe, ganhando, não o mais inteligente, o mais sensato, o que pode ter razão mas o que tem mais "músculos" e melhores "golpes de rins".
Não me lembro de alguma vez na vida ter resolvido problemas, teóricos ou práticos, através de um diálogo ou discussão. Felizmente, já resolvi alguns através de monólogos.  Ganhei uns, perdi outros. Mas tudo na meridiana claridade do tabuleiro de xadrez. E, quando assim é, no fundo, ninguém perde. Ganham todos, porque a razão virá sempre mais facilmente ao de cima.