20 Abril, 2012

ANIMA OBSCURA


Estou neste momento a ler o Crime e Castigo. Raskólnikov acaba de matar a velha e a sua pobre e inocente irmã. Um chocante e horrível crime que começamos a antever  logo desde o início ao penetramos directamente nos processos mentais e emocionais da personagem.
Porém, e por muito estranho que pareça, o que se torna verdadeiramente perturbador não é o crime. Um crime atroz, bárbaro, violentíssimo. Verdadeiramente terrível é a relação que se cria entre leitor e criminoso. Acompanhamos os passos e alma do assassino no momento em que se dirige para o local do crime, no momento em que se prepara para cometer o crime, no momento do próprio crime, e tudo isto com a mesma naturalidade do criminoso. Quer dizer, nada nos faz torcer para que ele se arrependa, para que alguma coisa corra mal e o crime não chegue a ser cometido. Como se estivéssemos sob um efeito hipnótico, a nossa alma flui com a alma do assassino e seguimos os seus passos como se fossem os nossos próprios passos.
Mas a nossa perversão, enquanto leitores, vai ainda mais longe. Descobrimo-la no momento em que, logo após o crime, existe a forte possibilidade de ser apanhado. O suspense é tremendo. E o que acontece a nós, leitores, neste momento? Torcemos para que Raskólnikov se safe, consiga fugir e, finalmente, chegue são e salvo ao seu quarto.
Acontece aqui o que me lembro de me ter acontecido no Matchpoint, um dos melhores filmes de Woody Allen e que recordo com saudade sempre que me falam dessa enormíssima desilusão que foi Midnight in Paris. Também nesse filme desejamos intimamente que o assassino não seja apanhado. Desejo gravíssimo, sabendo nós quem é a inocente e adorável vítima e os motivos de tão tenebroso crime.
Ler Dostoievski, penetrar nesse obscuro labirinto que é a alma humana, será sempre um grande desafio. Será sempre grande literatura, daquela que não pode morrer enquanto houver uma alma humana por descobrir.