05 Março, 2012

SOLILÓQUIO NA COZINHA

                                                                      Duane Michals

Ontem, vou para lavar a loiça do almoço e descubro que não havia água, deixando tudo  amontoado no lava-loiças. Fiquei aborrecido mas como a vontade de a lavar era nula, senti também um certo alívio por não  o fazer. Mais tarde, volto à cozinha para a lavar mas com o secreto desejo de que continuasse a não haver água para não a poder lavar. Eu sabia que tinha de lavar a loiça  mas sabia também que sem água não o poderia fazer. Mais: e com a consciência de não ser eu o responsável por não o fazer. Porém, desgraçadamente, descubro que já havia água. Mas como a vontade de a lavar se mantinha nula, pensei que, embora, de facto, já tivesse vindo a água, poderia ter-se dado o caso de ainda não haver. Não era uma realidade mas era uma possibilidade. E uma possibilidade verosímil, uma possibilidade que, apesar de não ser empiricamente real,  seria tão empiricamente legítima como a possibilidade, neste caso efectiva, de já haver água. Foi precisamente isso que disse a mim mesmo e fui sentar-me a ler um livro.