26 Março, 2012

CORIOLANOS


Na sequência do que escrevi aqui regresso às relações entre a literatura e o cinema. Desta vez, a propósito deste filme que vi ontem. No post anterior tinha pensado na adaptação de um texto clássico ao cinema como uma espécie de queda. Como degradação, em sentido platónico, de uma realidade inteligível perdida na obscuridade dos sentidos. Admito, entretanto, que naquele caso não pude deixar de ser influenciado pelo gritante e escandaloso contraste entre a imaculidade literária e estética do original e o pendor comercial do filme. Porém, o facto de Coriolano se tratar de um bom filme, levou-me a reavaliar criticamente o que havia afirmado anteriormente e a reformular a minha opinião. 
Desta vez prefiro não falar de uma queda ou degradação mas de dois diferentes registos de linguagem condicionados pelas, diferentes, essências da literatura e do cinema.  E isto, independentemente do modo como é feita a adaptação. Aliás, no caso deste filme, Ralph Fiennes (a sua primeira experiência como realizador) segue uma estratégia interessante: a história de Coriolano ocorre na actualidade mas os diálogos seguem o texto original, como se fosse uma peça verdadeiramente shakespeariana. 
A relação entre o texto e o filme será sempre uma relação aparente e artificial, por muito próximo que esteja o último do primeiro. Porque ler um texto ou ver um filme são duas experiências radicalmente distintas. Para complicar, direi ainda que ler no sofá da sala um texto dramático, escrito com o propósito de ser representado num palco por actores, também nada tem que ver com a sua representação física. Do mesmo modo que a representação num palco nada tem que ver com os meios técnicos da realização só possíveis no cinema. Lembro, a este respeito, o que aqui escrevi a respeito do desprezo de Tolstoi pelo teatro. Pensando no que diz o escritor russo direi que haverá, neste sentido, maior semelhança entre a liberdade da escrita e a liberdade do cinema, do que entre a liberdade da escrita e as limitações espaciais e temporais de uma peça de teatro, circunscrita a alguns metros quadrados de palco.
É por isso que não falo de degradação mas de diferentes usos de um mesmo texto que, originalmente, surge como arquétipo mas que irá dar lugar a diferentes experiência artísticas e estéticas. O que me leva a ver um filme realizado a partir de um texto que eu já li? O que me leva, entretanto, depois de ver uma representação de Coriolano num palco, a entrar numa livraria para comprar o livro? O que quero eu de um livro? O que quero eu de um filme? O que quero eu de uma peça de teatro? Um livro, um filme, uma peça de teatro são, de um ponto de vista formal, experiências tão distintas (independentemente da maior ou menor fidelidade ao texto original), que acaba por ser abusivo uma comparação entre si. 
Coriolano de Ralph Fiennes, e por muito fiéis que sejam os diálogos relativamente ao original, não é o Coriolano de Shakespeare mas o Coriolano de Ralph Fiennes. Daí não ser justo e apropriado um shakespeariano purista falar em degradação ou desvio face ao original. Quem não conhece o Coriolano de Shakespeare (como é o meu caso) continua a não conhecê-lo depois de ter visto (e lido através dos diálogos) o Coriolano de Fiennes. Por isso não se trata de uma degradação. Trata-se, sim, de linhas paralelas, que apenas vagamente se chegam a tocar.