04 Março, 2012

CAMERA OBSCURA

                                                         Wright Morris | Reflection in Oval Mirror

Quando na vida fazemos balanços precisamos sempre de nos apoiar em razões. «Por que razão fiz aquilo aos 18 anos? E, por que razão aos 22 ou aos 38 não fiz o que devia ter feito?» As razões surgem, deste modo, como uma mistura de justificação e legitimação. Detestamos o acaso, a arbitrariedade, o capricho, o imotivado. Precisamos, por isso, de compreender a nossa vida como um relojoeiro compreende o funcionamento de um relógio.
Porém, a procura de razões tem tanto de pernicioso como de ilusório, sendo, quase sempre, um analgésico que combate as dores das más decisões e arrependimentos vários. E porquê? Porque as próprias razões são elas mesmas arbitrárias e exigindo razões sobre razões sobre razões, até chegarmos a um ponto a partir do qual já não se consegue avançar mais. Estamos habituados a olhar para as razões como se fossem axiomas sagrados ou leis inexoráveis mas, na verdade, isso está longe de acontecer. Quando uma pessoa tenta encontrar uma razão pela qual se apaixona por um homem ou por uma mulher, a razão que pensa ter compreendido nunca é uma verdadeira razão, sendo antes, um efeito arbitrário de um conjunto de factores que ninguém domina.
Por que razão bebemos leite? Bebemos leite porque faz bem à saúde. A razão inversa pela qual não comemos cogumelos venenosos. Mas não existe uma conexão necessária entre o consumo do leite e a saúde.  Só a posteriori podemos compreender essa ligação. Mas é uma ligação arbitrária. Se a evolução humana tivesse sido outra, o leite poderia ter, em toda a humanidade, o efeito que tem naquelas pessoas que morrem ao bebê-lo porque são alérgicas. E fosse outra a evolução, poderia dar-se o caso de os cogumelos, que são, de facto, venenosos, serem bastante proveitosos para a saúde humana. Adão, acabado de ser criado por Deus, não irá compreender, pela simples contemplação do leite ou dos cogumelos, o que pode ou não ser benéfico na sua vida. Só pela experiência o poderá compreender. Mas a experiência, só por si, não nos dá razões. Faltam ainda razões. Ora, as razões, iremos entendê-las a posteriori, depois de uma análise ao leite e aos cogumelos, estabelecendo depois as respectivas compatibilidade e incompatibilidade com o organismo humano. São, porém, razões sempre contingentes, porque a justificação para uma coisa poderia ser sempre a  justificação para o seu contrário. Nós justificamos o facto de o  leite fazer bem à saúde. Se o leite matasse, iríamos igualmente justificá-lo. E encontraríamos ainda uma outra justificação se, porventura, o leite não fizesse nem bem, nem mal.
Depois, uma razão nunca deverá ser motivo para legitimar o que quer que seja. Justificar, explicar, dar razões, é uma coisa, legitimar, uma outra. O violador apresenta sempre uma razão para violar uma mulher e o mesmo se passa com um pedófilo em relação a uma criança. Os nazis tinham as suas razões para eliminar raças inferiores e para quererem dominar a Europa. As razões pelas quais um tipo é do Bloco de Esquerda são tão válidas como as razões apresentadas por outro para ser do CDS. 
Para que servem, pois, as razões? Para nada. São apenas uma forma de nos iludirmos com uma putativa lógica no real, com a existência de uma ordem, de uma mecânica que dê sentido aos factos. Apresentar razões não é mais do que andar de gatas atrás dos factos que ocorreram. Por que razão o Benfica perdeu 3-2 com o Porto? Lá vamos nós andar de gatas à procura. E descobrimos. Mas, a priori, antes do jogo começar, alguém consegue explicar que o resultado irá ser 3-2? A priori, o resultado poderá vir a ser 0-0, 1-0, 2-1, 4-2, etc. E fosse qual fosse o resultado seria sempre racional e legítimo. Quando Jorge Jesus constrói a equipa e a táctica antes do jogo, na sua cabeça é tudo racional e legítimo. Depois, quando o jogo chega ao fim, embora continuando a pensar que, a priori, tudo era racional e legítimo, descobre que existem factores, variáveis, pequenos átomos que ninguém controlar e prever.
Que interesse tem, portanto, saber «por que razão fiz aquilo aos 18 anos? E, aos 22 ou aos 38, não fiz o que devia ter feito?» A priori, era tudo claro. A posteriori, também tudo se torna claro. Porém, pelo meio, quase tudo é obscuro. A razão é uma camera obscura. Resta apenas a fé em que dos dias saiam fotografias cheias de sol e de luz.